Terça-feira, 02.04.13

Póvoa do Varzim promove poesia junto de jovens alunos

Póvoa do Varzim promove poesia junto de jovens alunos

A iniciativa, organizada pela Equipa da Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Campo Aberto – Beiriz e destinada a todos os alunos do 8º ano de todas as escolas do concelho, pretende assinalar o Dia Mundial da Poesia, que se comemorou a 21 de Março.


Promover o gosto pela poesia, desmistificar a dificuldade da escrita poética, participar de forma activa na construção do texto poético, fomentar o gosto pela partilha e estimular o gosto e a consciencialização na divulgação de conhecimentos adquiridos” são os objectivos desta acção, segundo nota de imprensa.

 

Mestre em Supervisão Pedagógica e Formação de Formadores, pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, e doutorando em Ciências da Educação, na mesma faculdade, João Manuel Ribeiro tem-se dedicado à escrita para crianças e a actividades de dinamização da literatura em colégios e escolas básicas do 1º ciclo (quer através de oficinas de escrita criativa, quer de encontros onde declama poesia). 

Dinamizou também já alguns projectos de escrita colaborativa com alunos, tendo daí resultado a edição de alguns livros.

 

Teresa Casas Novas

 

Retirado do HardMúsica

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Amadou & Mariam apresentam FOLILA no Coliseu de Lisboa a 25 de Abril

Amadou & Mariam


AMADOU & MARIAM

Coliseu de Lisboa | 25 Abril, 21h30

Em dia de lembrar a liberdade, juntemo-nos àqueles

que continuam também a cantar por um povo e um país

em paz!

Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia, dois dos maiores embaixadores mundiais da cultura do Mali, tão hipnótica quanto festiva, visitam-nos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 25 de Abril. Uma noite quente e de celebração de uma música enorme. Para dançar e ver, primeiro que tudo, com os ouvidos.


Amadou & Mariam fazem uma música de superação, que não conhece fronteiras. Uma música riquíssima em imagens, projecção nos instrumentos e nas vozes do magnífico mundo interior deste casal de invisuais. Folila, o seu último álbum, é a prova da universalidade desta linguagem, juntando-os a gente como Santigold, TV on the Radio, Jake Shears (Scissor Sisters) ou Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), no qual inventam uma nova ponte que liga o Mali ao resto de um universo pop/rock com o qual namoram sem problemas consciência. Não comprometendo a originalidade das suas canções, cantam todo um povo enquanto nos põem os sentidos em polvorosa.

 

Depois da visita a Portugal com o espectáculo Eclipse (apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian, em Novembro de 2012), que decorria na escuridão – aproximando músicos e público, mas também centrando toda a atenção nas histórias e nos sons que a dupla apaixonadamente coloca nas suas canções –, desta vez teremos entre nós a festiva passagem de Folila para palco. Aos temas novos juntar-se-ão, naturalmente, outros recuperados de Dimanche à Bamako (2004) e Welcome to Mali (2008), os álbuns da sua internacionalização, produzidos por Manu Chao e Damon Albarn, respectivamente.

 É hora de FOLILA!

Amadou Bagayoko - Guitar / Lead Vocal

Mariam Doumbia - Lead vocal

Boubacar Dembele - Percussions

Yao Dembele (Christophe Tribert) - Bass

Yvo Abadi - Drums

Charles-Frederik Avot – keyboards

publicado por olhar para o mundo às 19:36 | link do post | comentar

Associação 25 de Abril convoca 'grandoladas'

Associação 25 de Abril convoca 'grandoladas'
‘Grândola, Vila Morena’ vai ouvir-se na noite de 25 de Abril frente à Rádio Renascença (RR) e horas depois junto ao Quartel do Carmo. A iniciativa parte da Associação 25 de Abril, que enviou esta segunda-feira uma convocatória aos seus associados com o programa dos festejos do 39º aniversário da Revolução dos Cravos.

Para além do tradicional desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa, a novidade é a entoação da música que foi emitida às 00h20 de 25 de Abril de 1974 pela RR e que foi uma das senhas da revolução. Às 18h30, a canção vai repetir-se no Largo do Carmo, exactamente à hora em que ‘caiu’ o Governo de Marcelo Caetano.

 

Ao SOL , presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço, afirmou que o acto é «importante e cheio de significado pois a Grândola, Vila Morena é hoje uma canção de protesto contra a actual situação».

 

O jantar comemorativo será este ano no Regimento da Pontinha, posto de comando da revolução do 25 de Abril.

 

Retirado do Sol

publicado por olhar para o mundo às 10:53 | link do post | comentar

Desempregado reclama na justiça o direito de não pagar impostos

Desempregado reclama na justiça o direito de não pagar impostos

Entre deixar os filhos passar fome e pagar ao Fisco, um desempregado decidiu não pagar. Nesta terça-feira entrega exposição ao provedor de Justiça. Os juristas dividem-se.

Alcides Santos, um gestor de sistemas informáticos que está no desemprego há dois anos, entrega nesta terça-feira na Provedoria da Justiça uma carta onde explica o seguinte: vai deixar de pagar impostos. Nem IMI, pela casa onde habita, nem IRS e IVA, sobre um biscate que fez há uns meses. Invoca o artigo 21 da Constituição da República Portuguesa — o artigo que define o Direito de Resistência — para defender a legitimidade da sua decisão. Alega que acima dos seus deveres como contribuinte está o dever de não deixar os filhos passar fome.

 

O que pode ser abrangido pelo Direito de Resistência estipulado na Constituição é algo que, como é norma em matérias legais, divide os juristas. Como os impostos contestados por Alcides Santos foram aprovados pela Assembleia da República, e não existindo até agora qualquer parecer em contrário do Tribunal Constitucional, não se pode entender que o seu pagamento seja “uma ordem que ofenda os direitos dos indivíduos, nem uma força que deva ser repelida”, defende o constitucionalista Tiago Duarte, para quem esta iniciativa está assim “completamente à margem” do que é evocado no artigo 21 da Constituição.

 

“E o que pode fazer uma pessoa que é taxada por um imposto que não pode pagar, que é obrigada a cumprir o que não pode cumprir, senão resistir?”, contrapõe o juiz jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, António Colaço.

 

O juiz entende que esta é uma opção constitucional para um “desempregado que está no limiar da pobreza, que tem pessoas a cargo, e que já não pode fazer nada mais para inverter a situação de penúria em que se encontra”.

 

Alcides Santos escreve o seguinte no texto que quer fazer chegar ao provedor Alfredo José de Sousa: “Existe uma inegável hierarquia de valores que exige que eu faça o necessário para garantir a sobrevivência física dos meus filhos, dos meus pais e de mim próprio (o que se aplica a qualquer pessoa que se encontre na minha situação), a qual estará sempre acima das obrigações fiscais e, mais do que isso, encontra-se salvaguardada pelo artigo 21 da Constituição.”

 

“Queria cumprir”


Este desempregado vive na Moita, com a mulher e os dois filhos, numa casa que está a pagar ao banco: 400 euros por mês. O prazo do subsídio de 1150 euros que recebia acabou no mês passado. Este mês, diz, a família tem 600 euros para sobreviver — o ordenado da mulher, que trabalha num call center.

 

Desse bolo, 400 vão para pagar a casa e sobram 200 para tudo o resto. Com um filho de 15 anos, a frequentar o ensino secundário, e outro de 23, que está na faculdade, Alcides deu consigo, há duas semanas, a olhar para as contas. Já usa o cartão de crédito para pagar coisas básicas — “Estou a viver acima das minhas possibilidades porque não quero que os meus filhos passem fome”, ironiza o informático que, no seu último emprego, ganhava 2200 euros mensais.

 

Há uns meses, fez “um biscate” — e passou o respectivo recibo: cerca de 750 euros. Agora tem que pagar 158 euros de IVA e 79 euros de IRS. Foi para esse recibo que, há duas semanas, começou a olhar.

 

Sentado num banco do jardim público que fica em frente do prédio onde vive, continua: “Quando estamos no desemprego acontece uma coisa: temos muito tempo”, inclusivamente para ler a Constituição de uma ponta à outra. “Comecei a olhar para os papéis e a pensar: eu não consigo pagar isto. Bom... a minha formação é Matemática. O meu trabalho é arranjar solução para os problemas.” Voltou a ler a Constituição.

 

“O Governo não está a cumprir com o artigo que assegura o Direito ao Trabalho” e que incumbe o Estado de executar políticas de pleno emprego, argumenta. “Eu sou o produto dessa decisão do Governo. Por isso não consigo cumprir com as minhas obrigações. Sempre cumpri, e queria cumprir, mas agora tenho que optar: alimentar os meus filhos ou cumprir.” Para já, este homem que já esteve associado a organizações como o Movimento dos Sem Emprego gostaria que o provedor de Justiça se pronunciasse sobre a sua exposição. O passo que se segue pode ser informar o Fisco da razão pela qual não vai pagar. Para além disso, admite ter de informar outras entidades da mesma decisão — companhia da água, da luz, do gás. Porque acredita que, a manter-se na situação em que está, acabará por não conseguir liquidar essas facturas.

 

Um acto de “desespero”


Por desconhecer a situação e os argumentos exactos apresentados por Alcides Santos, o constitucionalista Gomes Canotilho escusou-se hoje a comentar este caso em concreto, mas lembra que o Direito de Resistência, conforme consignado na Constituição, se reporta à defesa dos “direitos, liberdades e garantias” do indivíduo, um lote que poderá não abranger o Direito ao Trabalho que, segundo Alcides Santos, lhe está a ser negado.

 

A acção deste desempregado estará talvez mais próxima da desobediência civil, um conceito que, lembra, nem todos consideram ser coberto pelo Direito de Resistência. Mas Gomes Canotilho consegue ler nela o “desencanto e o desespero” face a uma “tributação que atingiu quase níveis usurpatórios” e que, em conjunto com as taxas que devem ser pagas por serviços como a água e a electricidade, se impõem como “intervenções restritivas, que têm de ser justificadas quanto à sua necessidade, utilidade e proporcionalidade”, defende.

 

“Qualquer cidadão pode discordar do que se encontra estipulado na lei, mas não tem o direito de não a cumprir. Se entende que a lei é inconstitucional tem meios no ordenamento jurídico para reagir, seja por via do Tribunal Constitucional, seja por recurso ao provedor de Justiça”, argumenta, por seu lado, Tiago Duarte, frisando que o Direito de Resistência se aplica apenas a “situações limite”. Aquelas em que, em simultâneo, a Administração Pública age contra a lei e em que os cidadãos não têm tempo útil para recorrer aos tribunais: é o que aconteceria, por exemplo, se agentes policiais decidissem retirar alguém à força de sua casa sem qualquer motivo legal, acrescenta.  

 

Já António Colaço insiste que o Direito de Resistência existe quando se trata de defender “um bem ou para evitar um mal maior” do que a situação que o motivou. Acrescenta que no caso do desemprego, por exemplo, justifica-se por se destinar a evitar o que lhe pode sobrevir: a miséria e actos desesperados, como o suicídio.

 

Há algumas semanas, Alcides Santos preencheu os impressos para pedir o subsídio social de desemprego (que pode suceder o de desemprego). Espera uma resposta.

 

Trabalho estável, tem pouca esperança de arranjar. Quando, há dois anos, o contrato que tinha terminou, achou que ia arranjar o que fazer, como sempre tinha acontecido até ali. Mas acabou por ter que se conformar com a ideia de que “o mercado mudou” e os informáticos já não têm a mesma saída. “Até porque há miúdos a trabalhar de graça.”

 

Da sua ideia de resistir é que não desiste. “A minha obrigação é resistir”, escreveu no e-mail que esta semana enviou às redacções.

 

Os tiranos e o bem comum


O Direito de Resistência em matéria fiscal foi alvo de um acórdão aprovado em 2003, por unanimidade, pelo Supremo Tribunal Administrativo (STA) e tem sido retomado em outras deliberações.

 

A propósito de uma taxa que a Câmara de Lisboa pretendia cobrar a uma empresa por um acto que, entretanto, fora anulado, o STA lembrou naquele seu acórdão que o “privilégio da execução prévia” (execução de uma dívida antes da ordem do tribunal) não se aplica aos “actos de liquidação de tributos”. Mas, nestes casos, defendeu, a oposição dos contribuintes deve ser feita, precisamente, através do recurso aos tribunais, sendo este considerado “o meio processual adequado para a concretização do direito de resistência defensiva”.

 

Em Portugal, foi a invocação do direito de resistência, na sua interpretação mais lata, “que legitimou juridicamente a Restauração do 1.º de Dezembro de 1640”, sustenta Pedro Calafate, professor de Filosofia na Universidade de Lisboa. No pensamento dos Conjurados imperava a doutrina escolástica “segundo a qual Deus é a origem do poder enquanto autor da natureza social do homem”.

 

“Mas trata-se de uma origem em abstracto, porque, em concreto, quem concede ou transfere o poder para os reis é a comunidade”, continua. Esta transferência é feita “sob condição de respeito pela justiça e pelo direito fundamental de conservação da vida”. E, tendo por base esta premissa, “a comunidade ou os indivíduos directamente ameaçados podem resistir e destituir os governantes”. Ou seja, no século XVII o direito de resistência era entendido como uma reacção aos tiranos, categoria onde entrava também quem não governasse para o bem comum.

 

Retirado do Público

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Segunda-feira, 01.04.13

O maestro francês que gosta de ensinar em Portugal

O maestro francês que gosta de ensinar em Portugal

O maestro Jean- Marc Burfin a dirigir a Orquestra Académica Metropolitana ANDRÉ NACHO

Jean-Marc Burfin Professor na Academia Superior de Orquestra e maestro titular da Orquestra Académica Metropolitana, veio a Portugal há 20 anos e acabou por ficar.

 

São 17h15 em ponto. No anfiteatro-auditório do ISCTE as cadeiras vão sendo preenchidas no lado da plateia. No palco, ao fundo, estão dispostas em semicírculo dezenas de cadeiras, instrumentos, pautas de música. Os músicos que compõem a Orquestra Académica Metropolitana de Lisboa entram de forma ordeira e calma. Por fim, e acompanhado pelo violinista, Jean-Marc Burfin ocupa o seu lugar. O de maestro.

 

A saudação ao público é rápida e, num ápice, o som interrompe o silêncio na sala. Nesse breve momento, o maestro parece ter também orquestrado a completa ausência de ruídos do lado que não lhe compete orientar. A sala ficou parada dividindo atenções entre o violinista e os gestos duros e ritmados do homem de cabelo grisalho e fato escuro que coordena cada nota musical. A expressão facial pouco diz da pessoa que fala à orquestra. Como consegue um maestro falar a tanta gente em simultâneo? O segredo é o domínio da música. Um maestro deve estar sempre informado, saber o que quer, conhecer a partitura e saber na perfeição como pedir e obter o que quer. Aquilo que para o público é o espectáculo, para a orquestra é o produto final de um grande trabalho de bastidores. "Se eu falhar à frente do público, este talvez nem perceba, mas se eu falhar com o meu verdadeiro público, que é a orquestra, aí é pior", explica ao PÚBLICO o maestro titular da Orquestra Académica Metropolitana, Jean-Marc Burfin, para quem a "autoridade mais eficaz é a autoridade natural".

 

Este maestro francês que vive em Portugal há 20 anos já não fica nervoso antes de subir ao palco, a não ser quando os ensaios não correm bem (e isso já é raro acontecer). Entre aqueles que mais o influenciaram está o maestro russo Ievgueni Svetlanov. "Vi-o com três orquestras e obras diferentes e fiquei sempre impressionadíssimo. Há qualquer coisa que não tem a ver com a mecânica da direcção, há qualquer coisa que ultrapassa a questão técnica do maestro. É uma emoção muito forte", recorda o músico, que também foi aluno de Leonard Bernstein, a quem reconhece igualmente essas características transcendentes.

 

Goddard Lieberson, o compositor, disse um dia: "Mostra-me uma orquestra que goste do seu maestro e eu mostro-te um maestro preguiçoso." Mas Burfin não concorda. "Não é tudo branco, nem tudo preto, tem muito a ver com o percurso da orquestra, que é uma entidade com muitas pessoas, mas com um corpo único", defende. Na sua opinião, o maestro deve passar uma imagem de seriedade, não pode ser demasiado duro, mas também não deve ser brando. A exigência é uma forma de ser respeitado entre os músicos que podem ficar frustrados perante um maestro mais permissivo e descontraído. "Uma orquestra profissional não gosta de um maestro que não faz um trabalho sério", afirma.

 

"O sangue das obras"

 

A primeira coisa que Jean-Marc Burfin pede aos seus alunos de Direcção de Orquestra é uma demonstração de parte de uma obra onde "o próprio [aluno] vai criando a sua orquestra imaginária e mostra com gestos como é que acha que deve funcionar". O maestro-professor não segue um método uniforme para com todos alunos, tenta adaptar-se às capacidades e dificuldades de cada um. "Não há dois alunos iguais, é preciso respeitar a personalidade de cada um, no fundo o professor tem que ser diferente também", explica. Numa aprendizagem difícil de ministrar, em que o instrumento é a orquestra, "o reportório escolhido é acessível, do ponto de vista da estrutura e da forma, e concentrado em obras do período clássico, início do romantismo, de Haydn até Schubert". Há códigos comuns a todos os maestros, "um compasso a três é um compasso a três e um compasso a dois é um compasso a dois", explica. "Devo ter cuidado e actuar em conformidade com as orientações, pois os alunos têm uma disposição natural para imitar a minha regência e tem de haver coerência entre aquilo que peço e aquilo que eu faço", acrescenta. Tenta manter a simplicidade do gesto e impor a ideia de que à frente da orquestra tem de estar o melhor músico para "transmitir o sangue das obras".

 

Uma vez por semana, Constança Simas tem aulas de Direcção de Orquestra com este músico francês. "É um grande maestro e é humilde. Alguns maestros não gostam de ensinar, estão ocupados com a sua grandeza pessoal, mas ele não", diz a aluna, que quando fala do professor o faz com orgulho. "É muito sincero, às vezes até dói, mas quando são coisas boas, dá até vontade de dançar."

 

A Direcção de Orquestra aprende-se em público e por isso há uma pressão que não existe noutras aprendizagens, mais solitárias. Jean-Marc Burfin considera a lucidez, a humildade e a honestidade intelectual características importantes no aprendiz que tem de ter a perfeita noção de que está "perante obras e criadores que são muito superiores a ele". Brahms, Tchaikovski, Beethoven, Mahler, Ravel e Debussy são alguns dos nomes que destaca entre as suas preferências, admitindo-se mais sensível a determinadas estéticas ou períodos da música, como o fim do classicismo ou o início do romantismo. "Há sempre obras que gostaríamos de tocar, de apalpar e saborear melhor, é um poço sem fundo", observa.

 

Nos seus antigos alunos, apesar de não ser visível, sente alguns dos seus ensinamentos. "A Joana Carneiro dirige de uma forma completamente diferente da minha; significa que encontrou o seu próprio caminho, mas sei que se faz uma coisa completamente diferente daquilo que na altura fazia enquanto aluna, o faz sempre no sentido de corresponder aos critérios que lhe inculquei."

 

Já teve alunos a quem reconheceu falta de talento, mas também já foi surpreendido por alunos de quem não tinha grandes expectativas. Muitas vezes é uma questão de maturidade e de muita vontade. O que nota actualmente é que muitos dos alunos têm "dificuldades para aguentar, sob o ponto de vista económico, as exigências de um curso" e isso reflecte-se na forma como encaram a arte musical. "Sinto que há 20 anos havia mais ingenuidade no estudo da música, havia uma certa despreocupação, não havia tanta angústia, nem tanto calculismo na organização dos estudos." Sente que entre os alunos a ideia de que a música é uma segunda opção, paralela a outro rumo profissional que à partida assegura um futuro mais estável, é hoje mais comum.

 

O teste das notas erradas

 

Ao fim de tantos anos a viver em Portugal Jean-Marc Burfin não se sente português nem francês. O facto de ter família em França e na Polónia, e de ter estudado na Áustria e na Rússia, fá-lo sentir-se "um cidadão do mundo". Jean-Marc nasceu perto de Paris, em 1962, mas percorreu vários países da Europa por causa da profissão dos pais, que não tinham qualquer ligação à música. Foi na escola primária, onde havia muitas actividades, entre elas o coro, que se apaixonou por esta arte. Graças a um professor que reparou no seu talento e falou com os seus pais, aos seis anos iniciou o seu caminho na música. Começou a estudar piano em Lyon e prosseguiu os estudos em Nancy. "Tinha uma certa facilidade de assimilação, quer ao nível do ouvido, quer ao nível da leitura da música", recorda. No entanto, nessa altura ainda não pensava fazer daquela a sua profissão e só se começou a dedicar intensamente à música quando tinha 14, 15 anos. "O que é bastante tarde", lembra. "Normalmente para se chegar a um determinado patamar tem de haver um treino regular a partir dos sete, oito anos. Aos dez já é muito tarde." Apesar disso, em 1987, conquistou o 1º prémio de Direcção de Orquestra na classe de Jean-Sébastien Béreau, por unanimidade dos jurados, e depois foi convidado para dirigir a Orquestra de Paris. Foi finalista no Concurso Internacional de Jovens Directores de Orquestra de Besançon e recebeu o prémio especial da Orquestra da Rádio-Televisão de Moscovo.

 

No início da sua carreira foi posto à prova por alguns dos músicos mais velhos. "Os músicos mais velhos e experientes, que já têm 20, 30 anos de orquestra, acham que sabem tudo e, às vezes, nos ensaios alguns tocavam notas erradas para me testar, isso faz parte", recorda.

 

Desde essa época, o maestro já dirigiu inúmeras orquestras em França e no estrangeiro, como a Potsdam Phillarmonie, Württembergische Phillarmonie ou a Sinfónica de Oviedo. Mas quando terminou a sua formação não lhe foi fácil encontrar trabalho. "É um mundo muito fechado. Quando se sabe que determinada orquestra está a precisar de um maestro, normalmente já está alguém previsto", afirma.

 

Aos 30 anos soube de um projecto em terras lusas e rumou a Portugal, apesar de este não ser "um centro musical muito forte", perto das grandes referências como Paris, Londres ou Viena. Mas aqui tem "uma qualidade de vida" dificilmente alcançável noutros países. "O mar, o sol, a comida, o tempo, a serra de Sintra...", diz. Foi também aqui que conheceu a polaca Bogumila Burfin, sua mulher há 20 anos. No início trabalhavam em orquestras separadas, mas a música uniu-os e, "por culpa dele", acabaram por ficar. Têm um filho, que já toca piano.

 

Retirado do Público

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