Confissão de Armstrong coloca em risco futuro do ciclismo como desporto olímpico

Confissão de Armstrong coloca em risco futuro do ciclismo como desporto olímpico

Antigo ciclista pode enfrentar acusações de fraude e perjúrio nos Estados Unidos.

 

A admissão de que se dopou durante a carreira é um encontro com a verdade para Lance Armstrong. Mas a confissão do mítico ciclista pode deixá-lo a contas com a justiça americana e coloca mesmo em risco o lugar do ciclismo como modalidade olímpica.

 

“Podemos dizer: ‘olhem, vocês [ciclismo] têm um problema. Por que não sair [dos Jogos Olímpicos] durante quatro ou oito anos”, disse à Reuters Dick Pound, membro do Comité Olímpico Internacional (COI) e antigo presidente da Agência Mundial Antidopagem: “E quando pensarem que estão preparados para voltar, veremos se é boa ideia recolocar-vos no programa [olímpico].”

 

As declarações de Pound surgem depois de terem sido levantadas algumas dúvidas sobre a actuação da União Ciclista Internacional (UCI) no combate ao “doping” e de se ter sabido que a organização recebeu um donativo de 100 mil dólares de Lance Armstrong, em 2002 – a UCI negou que esse dinheiro tenha servido para esconder testes positivos do ciclista norte-americano.

 

Dick Pound disse mesmo que a única forma de o ciclismo se tornar “limpo” é saber que já não integra os Jogos Olímpicos e que tem ganhar o seu lugar de volta.

 

Além das possíveis implicações no ciclismo – Armstrong era o grande nome das últimas décadas –, o ciclista norte-americano fica agora à mercê da justiça norte-americana.

 

Os termos exactos da confissão de Armstrong na entrevista a Oprah Winfrey não são ainda conhecidos – o programa só é emitido na quinta-feira à noite nos EUA –, mas até a apresentadora já deu a entender que o ex-ciclista confessou ter recorrido a substâncias dopantes.

 

“Estou sentada aqui, porque já foi confirmado”, disse Oprah, numa entrevista ao programa matinal da CBS.

 

A apresentadora tinha um acordo com Armstrong para não revelar pormenores da entrevista realizada em Austin (Texas). No entanto, quando regressou a Chicago já grande parte dos órgãos de comunicação social americanos davam conta da confissão do ex-ciclista.

 

“As perguntas importantes que toda a gente no mundo inteiro queria ouvir foram feitas e respondidas. Fiquei satisfeita com as respostas”, contou Oprah que se confessou “atordoada” com algumas das respostas dadas por Armstrong na entrevista de duas horas e meia. “Foi certamente a entrevista mais importante que alguma vez fiz em termos de exposição”, acrescentou Oprah, dizendo que ambos ficaram esgotados. “Ele foi sério e preparou-se para este momento. E no fim, ficámos ambos exaustos.”

 

No plano pessoal, Armstrong pode vir a enfrentar diversas acusações judiciais nos Estados Unidos. O ciclista, que já foi banido do desporto e perdeu todos os títulos conquistados, já testemunhou, sob juramento, tendo negado sempre o recurso à dopagem.

 

“Tendo testemunhado sob juramento e negado todas as acusações, a confissão de Armstrong torna relativamente fácil provar acusações de perjúrio e obstrução da justiça”, disse à Reuters Andrew Stoltmann, um advogado de Chicago.

 

O mesmo advogado acrescentou que os antigos patrocinadores do ciclista podem processá-lo por danos à sua imagem.

 

A CBS, por outro lado, adiantou que Armstrong estará em conversações para devolver parte do dinheiro dos contribuintes americanos – a US Postal, onde correu durante anos, era a equipa dos correios dos EUA – e para testemunhar com outros envolvidos naquilo que a Agência Antidopagem dos Estados Unidos qualificou como “o mais sofisticado, profissionalizado e bem-sucedido programa de doping alguma vez montado no desporto”.

 

Outro advogado contactado pela AFP, Brian Socolow, diz que o Estado norte-americano pode reabrir o processo por fraude, arquivado no ano passado.

 

E Peter Keane, professor do Direito na Universidade de Golden State, acrescenta que o antigo campeão enfrenta grandes riscos. “Falo de dinheiro, de muito dinheiro, mas também de liberdade”, disse este especialista à AFP.

 

O Estado norte-americano patrocinou a US Postal com 30 milhões de dólares – adianta o Wall Street Journal – e, segundo peritos citados pela AFP, o Governo pode tentar recuperar o triplo deste montante.

 

Brian Socolow, por outro lado, considera provável que Armstrong e o Governo cheguem a um acordo, até porque “não teve muito sucesso em anteriores processos de perjúrio contra desportistas que confessaram o uso de doping”.

 

Retirado do Público

publicado por olhar para o mundo às 08:35 | link do post