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29
Mai13

Nova orquestra para jovens e obras no auditório são as novidades da temporada da Gulbenkian

olhar para o mundo

Uma renovação tecnológica, uma equipa de quatro maestros com um titular estreante, e mais uma orquestra, desta vez só com jovens músicos, marcam a próxima temporada Gulbenkian, que vai ocupar salas e igrejas em Lisboa e arredores.

 

Às 22h do próximo domingo o Grande Auditório da Fundação Gulbenkian entra em obras – sete meses para pôr de pé uma “revolução tecnológica” que, depois de concluída, deverá ser quase invisível. O regresso a casa está marcado para 15 de Fevereiro. Em palco, e sob a direcção de Joana Carneiro, os músicos da Orquestra Gulbenkian e os do mais recente projecto educativo da fundação vão encontrar-se para a Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz. Bem a propósito, sublinha a maestrina num pequeno filme que passou ontem em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação da temporada 2013/14, já que a peça do compositor francês retrata a vida de um artista qua ainda tem muito por descobrir.

 

O regresso a casa está marcado para 15 de Fevereiro. Em palco, e sob a direcção de Joana Carneiro, os músicos da Orquestra Gulbenkian e os do mais recente projecto educativo da fundação vão encontrar-se para a Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz. Bem a propósito, sublinha a maestrina num pequeno filme que passou na quarta-feira em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação da temporada 2013/14, já que a peça do compositor francês retrata a vida de um artista que ainda tem muito por descobrir.

 

A renovação do auditório, inaugurado como todo o edifício sede da fundação em 1969, é uma das grandes novidades do programa que começa com a 30.ª edição do Jazz em Agosto (dia 2) e que, devido às obras, terá metade do seu calendário de actividades disperso por diversas salas, do Centro Cultural de Belém (concertos sinfónicos) à Igreja de São Roque (concertos corais), passando pela Culturgest, a Academia de Ciências de Lisboa, o Mosteiro dos Jerónimos e até a Basílica de Mafra, onde o Coro Gulbenkian cantará pela primeira vez, num festival que reúne várias formações juvenis.

 

O coro receberá do novo maestro titular da orquestra, que se estreia a 3 de Outubro com A Criação, de Joseph Haydn, nos Jerónimos, uma atenção especial. Depois de 11 temporadas sob a direcção de Lawrence Foster, que na próxima segunda-feira passa a maestro emérito, a Orquestra Gulbenkian entra numa nova fase, liderada por Paul McCreesh. “Quando cheguei fiquei impressionado com a flexibilidade e a paixão destes músicos”, disse o maestro inglês de 53 anos a Risto Nieminen, quando o finlandês que dirige o serviço de música, regressado por momentos o papel de jornalista que desempenhou no passado, o chamou ao palco durante a conferência. “E com a especialização crescente das orquestras, é muito bom poder contar com uma equipa.”

 

McCreesh, que conduzirá a orquestra em dez concertos e numa digressão à China (Outubro), com Beethoven e compositores portugueses na bagagem, vai ocupar-se sobretudo da música coral e do reportório do século XIX, “mesmo nas suas zonas mais obscuras”. Aos três maestros convidados da sua equipa caberão outros períodos: a finlandesa Susanna Mälkki, antiga directora do Ensemble Intercontemporain, ficará com os clássicos do século XX e com o XXI; o português Pedro Neves, maestro titular das orquestras do Algarve e Clássica de Espinho, vai ocupar-se dos autores nacionais; e Carneiro será sobretudo a directora artística do Estágio Gulbenkian para Orquestra, o novo projecto pedagógico da fundação, dirigido aos estudantes de música de todo o país, entre os 17 e os 25 anos, cujas audições estão agora a decorrer.

É preciso reavaliar o papel das orquestras hoje porque elas são, também, valiosos recursos educativos

Paul McCreesh, maestro titular

McCreesh, que começou a sua carreira a dar aulas, gosta de trabalhar com jovens e ter um ensemble cujo objectivo é dar a intérpretes que estão a fazer formação superior em música uma “experiência de orquestra” pareceu-lhe a melhor forma de o fazer: “É preciso reavaliar o papel das orquestras hoje porque elas são, também, valiosos recursos educativos. É preciso pô-las a trabalhar em vários ambientes e não só com diferentes gerações de músicos profissionais, mas com diferentes gerações de amantes da música.”

 

McCreesh e Nieminen querem que esta formação, que começa o seu primeiro estágio já em Julho, depois de audições em Lisboa, Porto, Évora, Castelo Branco, Braga e Aveiro, funcione como um espaço de experimentação em estreita ligação com os músicos profissionais da casa. Isto significa que a fundação vai ter uma nova orquestra, uma espécie de ensemble-júnior de onde poderão sair músicos para a formação principal? “Não se trata de uma nova orquestra”, disse ao PÚBLICO o director do serviço de música. “O que vamos desenvolver é um projecto de educação que dá aos estudantes de música uma experiência séria essencial à sua formação.”

 

Todos os anos vão realizar-se vários estágios e, no final, a Gulbenkian conta poder reunir uma nova orquestra sinfónica, com 90 a 95 músicos. “Este é um projecto de continuidade”, assegura Nieminen, “mas não sabemos quando vai acabar”. Este modelo de formação inspirou-se no praticado pela Orquestra Gustav Mahler e pela de Jovens do Mediterrâneo, que têm dois estágios musicais por ano e onde cada músico seleccionado permanece por três ou quatro. “Aqui vai ser o mesmo. E contamos também que os músicos da nossa orquestra estejam muito presentes, como mentores dos mais novos.”

 

Joana Carneiro será a directora artística, com a colaboração de McCreesh, mas terá ainda tempo para se apresentar com regularidade ao longo de uma temporada que Risto Nieminen quis altamente diversificada e que inclui os concertos do costume, com solistas como Artur Pizarro, Grigory Sokolov, e as irmãs Labèque; as transmissões em directo e em HD da Metropolitan Opera de Nova Iorque (até Fevereiro, na Culturgest), um ciclo de Grandes Intérpretes (que terá, por exemplo, o maestro-estrela Gustavo Dudamel a dirigir A Sagração da Primavera a 6 de Abril) e encomendas a jovens compositores como Ana Seara e Daan Janssens.

 

Ainda no capítulo das encomendas, e integrado no programa em que a Gulbenkian se associa, como é já hábito, ao Teatro Municipal Maria Matos, há que destacar Two maybe more, obra que parte do universo criativo dos coreógrafos Sofia Dias e Vítor Roriz. Neste projecto que conta com música original de Pedro Moreira e em que estará envolvido o coro da fundação, o realizador e encenador Marco Martins volta a trabalhar com o escritor Gonçalo M. Tavares (6 de Setembro).

 

É também neste programa Teatro/Música que se apresenta a já muito elogiada colaboração entre os coreógrafos Anne Teresa de Keersmaeker e Boris Charmatz (Partita 2, 13 de Maio);The House Taken Over, a nova obra do compositor português Vasco Mendonça com encenação da inglesa Katie Mitchell (Maria Matos, 21 de Fevereiro), e Quartett, do italiano Luca Francesconi, uma produção do Teatro alla Scala com proposta cénica dos catalães La Fura dels Baus (1 Abril) e direcção musical de Susanna Mälkki.

 

Quartett, garante Nieminen, será “o primeiro grande teste” ao ambicioso projecto de renovação do auditório. Um projecto “praticamente invisível”, diz a administradora Teresa Gouveia. “Invisível” porque, “respeitando em absoluto o projecto arquitectónico original”, vai insidir sobretudo em aspectos técnicos. Na conferência, Celso Matias, director do programa de intervenção, e a arquitecta Teresa Nunes da Ponte fizeram referência a algumas das alterações, que passam pela melhoria da acústica e do ar-condicionado, pelo alargamento dos corredores de evacuação da sala, pela construção de novos camarotes e de um foyer multiusos no piso superior (por cima da zona do actual bar), pela instalação de cabines para filmagens e retransmissões dos concertos mais importantes e pela introdução de novos dispositivos que permitirão usar cenários mais sofisticados. Objectivo: aumentar a versatilidade do palco para permitir que a sala receba espectáculos pluridisciplinares, como a ópera.

 

“O grande auditório tem 45 anos e precisa de um rejuvenescimento técnico”, explicou Celso Matias, “os seus equipamentos estão gastos e descontinuados”. O maior desafio, admitiu, será concluir a obra em sete meses (deverá estar pronta a 31 de Dezembro). Tempo recorde para um projecto cujos custos a fundação não quer, por hora, divulgar.

 

A arquitecta salientou, por sua vez, o carácter “conservador” desta intervenção, sublinhando que não se trata de uma reconstrução, mas de um restauro, já que mexer na sede da Gulbenkian implica mexer em património nacional (o edifício dos arquitectos Ruy Jervis d'AthouguiaPedro Cid e Alberto Pessoa foi classificado em 2010).

 

Toda a equipa da fundação aguarda com expectativa o resultado dos trabalhos, admite o director do serviço de música. Risto Nieminen sabe que este é um auditório que diz muito a muita gente. “O público vai sentir que alguma coisa mudou.”

 

Retirado do Público

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