“O Público” de Lorca “visto” por António Pires

“O Público” de Lorca “visto” por António Pires“O Público” de Lorca “visto” por António Pires

“O Público” a peça que Lorca escreveu durante anos e cujo manuscrito último entregou a um amigo quando regressou a Granada vindo a morrer assassinado pelos franquistas dois dias depois, é um apelo à verdade teatral, ao teatro debaixo da areia, a uma criação teatral que incomode a burguesia instalada que quase obriga a criações convencionais.

Em 1934, numa entrevista a um jornal Lorca terá criticado duramente o público convencional, formado por uma burguesia “frívola e materialista”, que se sentava nas salas de espectáculos da Espanha de então. 

E é certamente a esse público indiferente, desrespeitoso e arrogante que Lorca dirigiu e é ele que está reproduzido nesta peça. 

Mas talvez mais ainda que uma crítica ao público , “O Público” traz à colação dois tipos de teatro, o teatro ao ar livre, ligeiro de facil compreensão e destinado a um público convencional e o teatro debaixo da areia, o teatro da alegoria, da imaginação em que as máscaras se despem e a verdade surge nua e crua.
E é nestes dois aspectos que António Pires “pega” de forma muito ousada mas talvez conseguida.

António Pires começa pela parte final da peça para mostrar o teatro convencional representado num espaço fechado, o Teatro São Luiz. 

E agarra em “Romeu e Julieta” de Shakespeare e no poema de Lorca, “Um poeta em Nova Iorque”, escrito em simultâneo com o “Público” para evidenciar as máscaras do teatro convencional em contraposição com a liberdade exigida ao Teatro e ao Actor.

 

E para uma demonstração de Verdade, António Pires coloca no Largo Camões um actor, neste caso Margarida Vila Nova, a ler um texto, uma espécie de Teatro Breve, onde Lorca explica a sua concepção de Teatro com Verdade.

 

O terceiro tempo desta peça acontece no Teatro do Bairro, onde “debaixo da areia” toda a Verdade surge. A Verdade do teatro e a Verdade da peça.

 

António Pires decidiu fazer aqui representar a primeira parte do texto de Lorca onde surgem os personagens como são na realidade, em sentimentos e amores.


A homosexualidade, muitas vezes escondida em Lorca, e talvez essa a verdadeira causa do seu assassinato, numa Espanha pseudo católica e muito conservadora, surge nesta terceira parte, num rompimento de máscaras, assombrando com a Verdade em Teatro e na Vida todo o Público presente na plateia.

 

Não podemos deixar de salientar neste final de “O Público” a intervenção de Laura Soveral, um ilusionista que pretende convencer o Director do Teatro ao Ar Livre, Adriano Luz, que convence mais facilmente com as sua magias que o director com as suas fantasias. Excelente a interpretação da velha senhora.

“O Público”, encenado por António Pires conta com a interpretação de Adriano Luz, David Almeida, Gabriel Gomes, Graciano Dias, Hugo Amaro, Jaime Freitas, Laura Soveral, Margarida Vila-Nova, Mário Sousa, Mitó Mendes, Rafael Fonseca, Rita Loureiro, Solange Santos.

 

Retirado do HardMúsica

publicado por olhar para o mundo às 10:51 | link do post | comentar