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As Coisas da Cultura

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31
Out13

Contos de Thomas Mann: Testazinhas de gente

olhar para o mundo
Nos contos de Thomas Mann, o que é íntimo e bizarro torna-se universal.
O crítico Harold Bloom chamou-lhe “ironia humanista”, qualidade hoje injustiçada, mas que fez do alemão Thomas Mann (1875-1955, Nobel da Literatura 1929) “o grande escritor derradeiro a emergir de Goethe”. Mann não é um autor actual. Nem na inteligência soberba, nem na minúcia das descrições, nem na profundidade especulativa, nem na lentidão escorrida da acção, nem no fundo eminentemente moral e idealista. Ainda bem. Para quem o lê pela primeira vez, aconselham-se as antologias de contos, como esta acabada de sair pela Bertrand e que relança, aumentando-a em um conto, uma edição da Ulisseia datada de 2007.

Nas 17 histórias propostas, destacam-se a estranheza, a feiura, a alienação ou a disfunção das personagens para questionar os valores burgueses. O tema (autobiográfico) é o confronto entre a liberdade individual ou artística e as convenções instituídas, sendo que estas últimas, ainda que postas em causa com acuidade e sarcasmo, não deixam de simbolizar a estabilidade e o conforto. É o caso de O Pequeno Senhor Friedemann (1896), onde um deficiente físico culto e socialmente bem posicionado crê poder proteger-se do desejo através da elevação estética, mas acaba vítima de uma mulher casada e da crueldade mais rasteira.

 

A antologia inclui vários marcos de talento contístico. O Menino Prodígio (1903) apresenta-nos o grego Bibi Saccellaphylaccas, compositor e intérprete precoce, um “fedelhozito versado” e deformadamente narcísico. Uma das suas actuações é relatada através da justaposição da postura e reflexões do músico e das impressões do público. O conto ilustra a complexidade dos narradores de Mann, cuja posição indefinida resulta, nas cenas e quadros sociais, numa voz cínica e afastada, mas capaz de se mover como uma incisão “nas testazinhas de gente”.

 

Hora Difícil (1905) complementa um ensaio dedicado a Schiller, poeta e intelectual alemão que Mann sempre admirou. Aqui, o narrador serve o retrato da enormidade das ambições e frustrações mais íntimas de um escritor. Numa noite de angústia frente a um manuscrito, revelam-se os seus temores perante a acomodação burguesa, a doença ou o fracasso. E ele pergunta, como um possível alter ego de Mann: “Não seria o próprio talento, dor?”

 

retirado do Sol

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