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As Coisas da Cultura

Porque há sempre muito para ver e para contar

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As Coisas da Cultura

09
Dez13

A dificuldade de ter um pipi

olhar para o mundo

Não é preciso ir buscar a velha e gasta conversa do papel preponderante que o homem sempre teve na história. Se o teve foi porque o deixaram e se deixaram se calhar é porque elas estavam cansadas de serem elas a fazer tudo e passaram a bola a outro. As que restaram, foram todas queimadas na fogueira.

 

Passado este episódio da história, e o dos sistemas matriarcais também, isto de ser-se mulher e de explicar esta "energia" feminina não é fácil. Não é mesmo.

 

Essa coisa de que elas são complicadas e que nunca se sabe como é que se há-de lidar com elas é mesmo verdade. Ser mulher é uma experiência maravilhosa, é tudo e bom. A roupa é muito mais gira do que a dos homens, há mais acessórios e pode-se ter filhos dentro da barriga e tudo. Assim num nível mesmo de gaja, ser mulher é isto. É bom. Eu falava mesmo era de ser mulher, mas de ser mulher assim lá mais dentro. Essa coisa de se sentir mulher de dentro para fora. De ter uma série de coisas que nem a própria sabe explicar, (sem ser o "período" que está para chegar, sim?!) e sem se saber explicar, "tem" que se agir, falar e ter uma vida que não se sente sem se poder explicar porque ninguém vai perceber... São poucos os que sabem, porque são poucos, também, os que conseguem ver o mesmo que se sente sem ter que se explicar. E às vezes explicar tudo o que não se saber explicar... Gaita!

 

É difícil porquê?

 

Para algumas mulheres, ter que apaziguar a efervescência de uma energia que nem sempre controlam é de facto muito complicado. É o mesmo que levar um tigre selvagem para uma tenda de circo e estar à espera que ao estalar do chicote ele saiba que tem que rebolar para o lado, e para que lado. É estar em pleno Chiado à hora de ponta e sentir o vento na cara, os cabelos soltos, as passadas largas e lobos a correm-lhe ao lado. É ter toda a sabedoria ancestral de todos os antepassados a correrem também dentro delas. As avós, as tetravós, as bisavós e essas avós todas do mundo ali presentes, a nascer, a parir, a morrer e voltar a nascer a parir e a morrer em minutos enquanto de leva uma vida.

 

E então?

 

E então estas são mulheres que revelam uma confiança que não é construída, nem instruída. É uma confiança e uma força de origem. Da origem da terra, da mãe, da avó, da tia, das mulheres todas que viveram antes dela, condensadas nelas só. E enquanto correm, com o vento e com os lobos, não sabem se o coração que ouvem é o seu, se dos lobos, dos seus antepassados ou da Terra. Sim, o coração da Terra que trazem mesmo debaixo dos pés. Dessa Terra que lhes grita para serem sempre bravas e fortes, doces e meigas, guerreiras e pacificadoras, amantes, mães, rameiras, amigas, fortes, frágeis, singelas e arrebatadoras. Dessa que todos os dias lhes pede que nasçam, procriem, gerem, morram e o façam de novo mais uma vez e outra. Todos os dias. E às vezes só a Terra as faz parar, quando as chama ao chão de tanto dançarem.

 

Aquela que se esquecer que transporta consigo todos estes corações, arrisca-se a deixar secar o seu. Enquanto isso, eu...

 

Eu desbravei uma tijela de marmelada caseira.

 

Marta Ramalho



Retirado de A Vida de Saltos Altos

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