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As Coisas da Cultura

Porque há sempre muito para ver e para contar

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As Coisas da Cultura

05
Mar13

Morreu Hugo Chávez

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Morreu Hugo Chávez

Presidente da Venezuela, de 58 anos, não resistiu ao cancro.

 

O Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu nesta terça-feira, aos 58 anos, num hospital militar em Caracas, na sequência de complicações após a quarta operação ao cancro, anunciou o vice-presidente Nicolás Maduro.

 

“Às 16h25 [21h25 em Lisboa] morreu o Presidente comandante Hugo Chávez. A toda a sua família transmitimos a nossa dor e a nossa solidariedade”, disse Maduro, que a imprensa venezuelana descreve como emocionado. “É uma tragédia histórica aquela que hoje toca a nossa pátria. Apelamos a todos os nossos compatriotas a serem os vigilantes da paz, do amor e da tranquilidade da pátria. Queridos compatriotas, muita coragem, temos que crescer por cima desta dor”, afirmou.

 

Nicolás Maduro, designado pelo próprio Chávez como seu sucessor, mobilizou as Forças Armadas e a polícia para "proteger a paz do povo venezuelano". Os chefes militares, por sua vez, já se afirmaram fiéis a Maduro.

 

Nesta terça-feira, numa intervenção em directo na televisão pública, Nicolás Maduro tinha anunciado a expulsão de um diplomata dos Estados Unidos da América, acusado de conspiração para propagar rumores sobre a morte de Chávez e de ter tentado contactar antigos militares, afectos ao regime anterior à revolução chavista. Maduro acusou ainda os "inimigos" da revolução de terem provocado o cancro do Presidente venezuelano.

 

Chávez era Presidente da Venezuela desde 1999. Foi reeleito nas eleições de Outubro, mas não chegou a tomar posse. Há muito que se especulava sobre o seu estado de saúde e a oposição já estava a preparar-se para novas eleições presidenciais, que agora terão mesmo de se realizar.

 

Após as operações em Cuba, Chávez voltou à Venezuela a 18 de Fevereiro, altura em que publicou o seu último tweet. O regresso à pátria foi visto por alguns como sinal de uma melhoria no estado de saúde do Presidente e uma forma de finalmente tomar posse, mas outros analistas viram nesta viagem um sinal de que a doença ganhava a batalha.

 

A constituição prevê que a presidência seja assumida interinamente pelo presidente do Parlamento, Diosdado Cabello, que tem de convocar eleições no prazo de um mês.

 

Retirado do Público

09
Fev13

Juiz chileno ordena exumação do corpo de Pablo Neruda

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Juiz chileno ordena exumação do corpo de Pablo Neruda

Família do poeta mantém que a causa de morte foi cancro, o antigo motorista alega que agentes de Pinochet envenenaram Neruda.

Um juiz chileno ordenou a exumação do corpo do poeta Pablo Neruda, que morreu em 1973, como parte de uma investigação, iniciada em 2011, à possível causa da sua morte.

 

Neruda morreu 12 dias depois de um golpe militar ter derrubado o Presidente socialista Salvador Allende colocando no seu lugar o general Augusto Pinochet. A família do poeta, e a fundação com o seu nome, mantiveram sempre que Neruda morreu de cancro.

 

A actual investigação começou depois de o antigo motorista de Neruda, Manuel Araya Osorio, dizer que agentes a mando de Pinochet o teriam envenenado na clínica onde estava a ser tratado a um cancro da próstata em estado avançado. Tinha 69 anos.

 

“Após o 11 de Setembro, o poeta iria exilar-se no México junto com a sua mulher, Matilde”, contou o motorista ao diário espanhol El País. “O plano era derrubar o tirano a partir do estrangeiro em menos de três meses. Ele ia pedir ajuda ao mundo para afastar Pinochet. Mas antes de apanhar o avião, aproveitando que estava numa clínica, deram-lhe uma injecção letal”.

 

O Partido Comunista pediu então uma investigação. O juiz Mario Carroza decidu abrir um processo à causa da morte do Nobel da Literatura. Após 20 meses de interrogatórios e perícias, decidiu , diz o diário espanhol.

 

O El País comenta que tal como aconteceu em Espanha com a família do poeta Federico García Lorca, que durante anos se opôs à exumação do corpo, também a Fundação Neruda se manifestou, logo no início da investigação, contra uma possível exumação. “Seria um verdadeiro acto de profanação”, disse mesmo o antigo presidente da fundação, Juan Agustín Figueroa. Mas entretanto a fundação deixou de se opor, e disse esperar que as análises aos restos mortais “ponham fim a todas as dúvidas que ainda subsistirem” e que o processo fosse levado a cabo com rapidez.

 

A exumação não tem ainda data marcada. Neruda está enterrado junto com a mulher em Isla Negra, a cerca de 120 quilómetros da capital, Santiago.

 

Em 2011, no mesmo ano em que abriu a investigação à causa da morte de Neruda, foi exumado o corpo de Salvador Allende, amigo do poeta. Foi então que se confirmou que Allende se suicidou e não foi morto pelos soldados que entraram no palácio presidencial de La Moneda durante o golpe.

 

Noticia do Público

15
Jan13

Morreu Nagisa Oshima, o director de O império dos sentidos

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Morreu Nagisa Oshima, um dos grandes cineastas do corpo

O realizador de O Império dos Sentidos e Feliz Natal, Mr. Lawrence, um dos mais importantes nomes do cinema japonês do século XX, morreu num hospital de Kanagawa, a sul de Tóquio.

 

O realizador japonês Nagisa Oshima morreu esta terça-feira aos 80 anos na sequência de uma pneumonia, noticiam os meios de comunicação japoneses. A televisão pública japonesa NHK precisa que o cineasta morreu num hospital em Kanagawa, a sul de Tóquio.

 

"O meu pai morreu tranquilamente", disse à AFP o seu filho mais novo, Arata, precisando que o cineasta se encontrava internado desde o ano passado e que faleceu rodeado pela família, entre os quais a mulher, Akiko.

 

A primeira longa-metragem de Oshima foi Uma Cidade de Amor e Esperança(Ai to Kibo no Machi), de 1959, tendo logo aí firmado uma temática que iria percorrer a sua obra: os deslocados, as personagens mal amadas e à margem de uma sociedade. Já Feliz Natal, Mr. Lawrence, um filme de guerra protagonizado por David Bowie, que interpreta um prisioneiro britânico num campo japonês, e pelo compositor Ryuichi Sakamoto, que veste a pele de um militar japonês que dirige o campo, mereceu a Nagisa Oshima a entrada a concurso para a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1983. Seria o seu único filme em inglês, onde o realizador tenta resgatar a memória do comportamento do Japão na Segunda Guerra Mundial. O filme explora a relação homoerótica entre Bowie e Sakamoto, contando ainda com a presença do actor e realizador Takeshi Kitano.

 

Nascido a 31 de Março de 1932 em Quioto, no meio de uma família aristocrática e tradicional, Nagisa cedo se interessou por causas estudantis e por política. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Quioto, onde liderava actividades estudantis de esquerda, e especializou-se em História Política. Mais tarde, tornou-se crítico de filmes e editor da revista de cinema Eiga Hihyo. Foi nos estúdios Shochiku que aprendeu a filmar, trabalhando como assistente de realização. 

 

Nagisa Oshima foi um dos nomes-chave da “nova vaga” japonesa conhecida como nuberu bagu, iniciada em finais dos anos 1950 por uma geração de jovens realizadores que trabalhava dentro do sistema de estúdios nipónico, da qual faziam igualmente parte Shohei Imamura, Kaneto Shindo, Masahiro Shinoda ou Seijun Suzuki. A carreira dos velhos mestres acabava, o cinema era cada vez mais ameaçado pela televisão, um novo público chegava às salas e os velhos estúdios não tinham como não acolher a "revolução" – tal como aconteceria na América à "nova Hollywood".

 

Depois da sua estreia na longa-metragem em 1959 com Ai To Kibo No Machi,Oshima assinou durante os dez anos seguintes 17 das suas 26 longas-metragens, tornando-o num dos mais prolíferos cineastas de uma década fértil em convulsões na arte e na sociedade nipónica. A que Oshima respondeu, em filmes como O EnforcamentoNoite e Nevoeiro no Japão ou Cerimónia Solene, como ferozes investidas contra a sociedade burguesa, armadas de sexo e política.

 

Experimentalista formal incansável e iconoclasta assumido que disse em tempos odiar tudo no cinema japonês, Oshima abandonou os estúdios Shochiku onde iniciara carreira na sequência da controvérsia levantada porNihon no Yoru to Kiri (Noite e Nevoeiro no Japão, 1960). Esta sátira da política japonesa foi retirada de exibição pela companhia, preocupada que o filme tivesse incentivado o assassínio de um político por um membro da extrema-direita. Oshima estabeleceu-se então independentemente e partiu para uma carreira marcada pelas reviravoltas estilísticas. Para Ninja Bugei-cho (Bando de Ninjas, 1967) sonorizou quadradinhos de um popular mangade época; Shinjuku Dorobo Nikki (Diário de um Ladrão de Shinjuku, 1969) construía-se como uma colagem godardiana de ficção, improvisação, documentário e found-footage.


Se os críticos e estudiosos consideram a sua produção dos anos 1960 como fulcral para a compreensão da sua carreira, a maioria destes filmes foi pouco vista fora do Japão e só começou a ser descoberta no Ocidente com o recente reacordar do interesse na história do cinema japonês.

 

Foram os últimos filmes de Oshima – as obras realizadas a partir de Cerimónia Solene (1971) – a valer-lhe a sua aclamação internacional: a co-produção britânica Feliz Natal, Mr. Lawrence (1983), com David Bowie, e o controverso díptico formado por O Império dos Sentidos (1976) e O Império da Paixão (1978, Melhor Realizador em Cannes). O seu último filme, Tabu, foi realizado em 1999, numa altura em que Oshima se encontrava já debilitado; dois AVC sofridos posteriormente impediram-no de voltar a filmar.

 

 

O escândalo em Portugal


E foi O Império dos Sentidos que lançou inesperadamente, pelo menos sob a forma de referência de cultura popular, Oshima para o mainstream português. Os anos 1990 tinham acabado de começar e a RTP programou a exibição de O Império dos Sentidos para uma noite do início de 1991. O erotismo do filme, focado na relação num crescendo obssessivo entre a prostituta Sada (interpretada por Eiko Matsuda) e o dono do bordel Kichizo (Tatsuya Fuji), gerou escândalo em Portugal e teve honras de primeira página dos jornais – na época, o arcebispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, insurgiu-se contra a administração da RTP pela inclusão da obra na grelha do canal público, tendo ficado conhecida a sua frase sobre o visionamento de O Império dos Sentidos: "Aprendi mais em dez minutos deste filme do que no resto da minha vida". O humorista Herman José imortalizou o momento em que o país discutiu a obra e o seu cariz explícito num sketch do seu programa de fim de ano.  

 

Como escreveu Augusto M. Seabra, em 2008, é mais que lamentável que um tão grande cineasta – e seguramente com Fassbinder e Pasolini um dos grandes “cineastas do corpo” – tenha sido remetido para um virtual esquecimento, como se só houvesse a recordar, e porque “escandalosos”, O Império dos Sentidos e O Império da Paixão. O crítico do PÚBLICO escrevia a propósito da exibição pela Cinemateca de Noite e Nevoeiro no Japão, o quarto filme do realizador (depois de Contos Cruéis da Juventude e O Cemitério do Sol), afirmando que este foi a matriz da nuberu bagu, talvez a mais política de todas as “novas vagas” dos anos 60, por certo a mais radical na sua abordagem não só da política como da sexualidade. Noite e Nevoeiro no Japão é seguramente um dos grandes filmes políticos e um dos filmes mais marcantes dos anos 60.

 


 Retirado do Público

10
Jan13

A morte volta ao Dakar

olhar para o mundo

A morte volta ao Dakar

Um acidente entre um carro de assistência e dois táxis provocou a morte a duas pessoas e ferimentos em 11, perto da fronteira entre o Peru e o Chile.

 

O longo historial de acidentes mortais no rali Dakar somou esta quinta-feira mais vítimas, desta vez fora da corrida. Um choque entre um carro de assistência da equipa inglesa Race to Discovery e dois táxis provocou dois mortos e 11 feridos.

 

O acidente ocorreu numa zona montanhosa, perto da fronteira entre o Peru e o Chile, a poucos quilómetros da zona onde fora instalado o acampamento do Dakar, após a quinta etapa, realizada nesta quarta-feira.

 

Tratou-se de um triplo choque que envolveu dois veículos particulares e uma unidade de assistência da prova, segundo revelou o chefe do departamento dos bombeiros locais ao correspondente do jornal argentino Clarín.

 

Um dos táxis envolvidos, onde viajavam seis pessoas, chocou frontalmente com o veículo do Dakar, provocando a morte ao seu condutor e a um dos passageiros, deixando feridos os restantes quatro. Uma das vítimas mortais era peruana, não tendo sido possível ainda identificar a outra.

 

O segundo táxi tentou evitar a colisão, mas acabou por capotar, provocando ferimentos a quatro pessoas. Os restantes três feridos pertenciam ao veículo de assistência e teriam nacionalidade inglesa. Todos foram internados no hospital da localidade de Tacna.

 

Enquanto espera o evoluir dos 11feridos, a organização do Dakar anunciou, em comunicado, que está a colaborar na investigação do acidente, para determinar as suas causas exactas.

 

Noticia do Público

09
Jan13

Morreu Shomei Tomatsu, um dos pais da moderna fotografia japonesa

olhar para o mundo

Morreu Shomei Tomatsu, um dos pais da moderna fotografia japonesa

Autor de uma das obras mais marcantes da devastação causada pelos ataques nucleares a Nagasaki e Hiroshima e impulsionador de uma abordagem fotográfica impressionista da realidade

 

Morreu o fotógrafo japonês Shomei Tomatsu, responsável por uma das mais marcantes obras sobre a devastação e os sobreviventes do bombardeamento atómico de Nagasaki e Hiroshima, em 1945, e reconhecido como um dos mais influentes fotógrafos da moderna fotografia nipónica do pós-guerra. A informação do desaparecimento de Tomatsu, que morreu de pneumonia provocada por um cancro no dia 14 de Dezembro, só ontem foi divulgada pela família. Era avesso a grande exposição pública e, segundo o The Guardian, nunca terá saído do seu país natal.

 

Tomatsu, que tinha 82 anos, estava internado há algum tempo no hospital de Naha, capital da província de Okinawa, no Sul do país, uma das regiões que mais fotografou e onde captou as marcas de uma cultura muito particular que sobreviveu a recorrentes invasões, conquistas e ocupações, como a que aconteceu com o Exército norte-americano depois da capitulação nipónica na II Guerra Mundial. A cultura popular americana do pós-guerra e a sua influência na sociedade japonesa foi, aliás, um dos seus principais corpos de trabalho, imagens que tentam capturar as subtilezas visuais, as ambivalências de comportamento de uma sociedade em profunda transformação. Chewing Gum and Chocolate é uma das séries mais famosas deste trabalho e foi registada ao longo de vários anos nos arredores de bases aéreas americanas instaladas em território japonês. Tomatsu concentrou-se sobretudo na experiência individual e nos sinais da presença humana para tentar interpretar situações conjunturais extremas ou em profunda mudança.

 

Michael Hoppen, o galerista que o representava em Londres, afirma, em declarações ao site PDN, que se perdeu “um dos maiores fotógrafos do mundo”. “Shomei Tomatsu recusou-se a ceder em todos os níveis e era o fotógrafo dos fotógrafos”.

 

Considerado um dos pais da moderna fotografia japonesa, que nos anos 60 começou a dar sinais através de nomes como Takuma Nakahira e Daido Moriyama e de fotolivros e revistas como a seminal Provoke, foi premiado com inúmeras distinções nacionais e internacionais tendo publicado 17 fotolivros a título individual. Pouco conhecido fora do Japão, o trabalho de Shomei Tomatsu foi, no entanto, alvo de uma grande retrospectiva no San Francisco Museum of Modern Art em 2006 (Shomei Tomatsu: Skin of a Nation).

 

Em simultâneo ao impacto da cultura Ocidental nos mais tradicionais modos de vida japoneses, Tomatsu inquiriu visualmente a proliferação de uma cultura boémia e reactiva ao longo dos anos 60, investida concretizada sobretudo nas séries Eros, Tokyo e Protest, Tokyo.

 

Um fotógrafo em roda-livre


Citado pelo British Journal of Photography, o crítico e teórico de fotografia Gerry Badger afirma que Tomatsu influenciou “de forma decisiva” a chamada “geração Provoke” que agrupou muitos fotógrafos japoneses em início de carreira que desenvolveram um estilo visual “em roda livre, altamente expressionista no qual cada fotografia pretendia chegar aos limites da incoerência descritiva”. Para Badger, um dos aspectos mais relevantes deste grupo, que teve em Tomatsu um dos principais impulsionadores, era a sua atitude desafiante em relação ao mundo, uma atitude inflamada pelo protesto político e pouco interessada em consolidar um estilo ou uma estética particulares.

 

Nascido Teruaki Tomatsu, em 1930, em Nagoya, Shomei Tomatsu era um militante pacifista, muito contido nas palavras e na exposição pública dos seus sentimentos, segundo descreve o obituário do jornal francês Le Figaro, assinanado por Valérie Duponchelle, que o entrevistou no Japão. Começou a fotografar quando era criança e depois de um título académico em Económicas pela Universidade de Aichi, colobora com o grupo editorial Iwanami. Esta ligação dura pouco, dois anos, tornando-se freelance logo a seguir. Em 1959, funda a cooperativa de fotografia "Vivo”  (1957-1961) em colaboração com Eiko Hosoe (1933-) e Ikko Narahara (1931-).

 

O primeiro grande marco da sua carreira acontece com a publicação deHiroshima-Nagasaki Document 1961, ao lado de Ken Domon (1909-1990), um fotolivro que desperta o interesse do público e da crítica pela forma impressionista e pouco documental com que trata a devastação causada pelos bombardeamentos atómicos àquelas duas cidades nipónicas, a 9 de Agosto de 1945. É deste período uma das mais icónicas fotografias da sua carreira e do que significou o lançamento das duas bombas atómicas sobre o Japão. Melted Bottle não é uma imagem imediata, mostra aquilo que parece um corpo mutante retorcido, um corpo sem pele, esticado, quando na verdade é uma garrafa de cerveja moldada pelo calor e impacto dos engenhos nucleares. Os objectos arquivados num pequeno museu de memória, onde foi registada esta imagem, dão a Tomatsu uma metáfora visual poderosa do que aconteceu aos corpos humanos nos ataques, ao mesmo tempo que sugere os custos de um acontecimento que mudou a história do país.

 

Depois do trabalho centrado em Hiroshima e Nagasaki, Tomatsu mudou-se para Okinawa quando aquela província estava sob ocupação americana (só foi restituída oficialmente ao Japão em 1972). Para além de ter captado as consequências sociais desta presença naquela região, Shomei Tomatsu construiu um corpo de trabalho de grande relevância sobre as manifestações culturais mais tradicionais do arquipélago. 

 

No final dos anos 90, Tomatsu instalou-se novamente em Nagasaki, onde voltou a retratar sobreviventes da bomba atómica, até que, há cerca de dois anos, regressou a Okinawa, onde acabou por morrer. Nos anos mais recentes fotografou também os impactos da explosão económica no Japão. Uma das últimas grandes exposições do seu trabalho aconteceu em 2009 no Museu da Bomba Atómica de Nagasaki.

 

Noticia do Público

06
Dez12

Morreu o arquitecto Oscar Niemeyer

olhar para o mundo

Morreu o arquitecto Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer passou o último ano entre o hospital e sua casa REUTERS

 

Nascido no Rio de Janeiro, a 15 de Dezembro de 1907, estava perto de celebrar os 105 anos.

 

O arquitecto brasileiro Oscar Niemeyer morreu aos 104 anos, num hospital do Rio de Janeiro. Tinha sido internado no início do mês passado, pela terceira vez este ano. Desde então, o estado clínico tinha vindo a agravar-se, com problemas respiratórios e renais.

 

Nascido no Rio de Janeiro, a 15 de Dezembro de 1907, estava perto de celebrar os 105 anos. Visitei-o uma última vez, em Março de 2011. Andava entusiasmado com a criação de uma nova Escola Popular que teria o seu nome. Com o humor que todos lhe reconheciam, recordou a construção de Brasília e a sua aversão por viagens de avião. Frequentou o escritório da Av. Atlântica, em Copacabana, até quase ao fim.

 

No Hospital Samaritano ainda trabalhou, contou o seu médico Fernando Gjorup. Só perdeu a consciência na manhã de quarta-feira. O seu corpo irá, na manhã de quinta-feira, para Brasília, onde ficará no Palácio do Planalto, a residência oficial da Presidente Dilma Rousseff. Ao final do dia, regressará ao Rio de Janeiro onde, numa cerimónia para a família e os amigos, será velado. Na sexta-feira de manhã, o espaço do Palácio da Cidade, a sede da prefeitura do Rio de Janeiro estará aberta ao público. O enterro será à tarde, no cemitério de São João Batista, na cidade. 

 

Oriundo de uma família carioca, conservadora e católica, com descendentes germânicos que acompanharam a corte portuguesa, em 1807, na sua mudança para o Rio de Janeiro, Niemeyer viveu uma juventude despreocupada e protegida por uma prima solteira. Estudaria arquitectura por convicção ainda que só tardiamente. No terceiro ano, já casado com Annita Balbo, ofereceu-se para trabalhar gratuitamente no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão.

 

Com Lúcio Costa, cinco anos mais velho, inicia-se na leitura das ideias de Le Corbusier, com quem teria a possibilidade de colaborar logo em 1936, no projecto para o Ministério da Educação e Saúde, no Rio. O edifício seria o resultado de uma equipa montada por Costa, tendo Le Corbusier como consultor. Niemeyer teria grande responsabilidade no desenho final, influenciando a posição do bloco principal no quarteirão, ou determinando a direcção horizontal dos “quebra-sóis”. Em 1939, também em uma parceria com Costa, projectou o pavilhão do Brasil para a Feira Internacional de Nova Iorque, abeirando-se já de uma espacialidade gestual, concretizada no desenho da rampa e na permeabilidade do volume, características que assinalariam a sua primeira grande ruptura com o racionalismo internacional.

 

O melhor, portanto, insinuava-se: “Minha arquitectura começou depois na Pampulha”. Estava-se em plena segunda guerra na Europa e, a serviço de Juscelino Kubitschek, futuro presidente do Brasil, construiria quatro obras-primas à beira da lagoa da Pampulha, bairro residencial sofisticado na periferia da capital mineira de Belo Horizonte. Aqui estreava-se na exploração das capacidades plásticas que a nova técnica do betão armado possibilitava, dotando os seus edifícios de uma forte conotação formal.

 

No entanto, quando surgiu o desafio, também lançado por Kubitschek, já presidente, para a construção dos principais edifícios públicos da nova capital do país Brasília – inaugurada em Abril de 1960 – a arquitectura de Niemeyer ressente-se desse “excesso” formalista, contraindo-se aparentemente. Os edifícios de Brasília apresentam-se geometricamente mais regrados e definidos pela estrutura, como é o caso do Palácio da Alvorada, logo de 1956, ou o conjunto da Praça dos Três Poderes. Esta nova fase seria significativa para a evolução da arquitectura brasileira, repercutindo-se no trabalho das gerações mais recentes.

 

A colaboração estreita que manteve com os engenheiros de estruturas transformaria a sua arquitectura num ensaio de risco permanente. Essa confiança haveria de se manifestar nas obras construídas no exílio, cumprido em plena ditadura militar. Na Argélia, recentemente independente, mais exactamente no campus da universidade de Constantine, cumpriu um dos seus programas arquitectónicos mais arriscados, levando a técnica do betão armado a um limite aparentemente insustentável. Contra o conselho dos engenheiros franceses que propuseram que a grande viga longitudinal, que compunha a fachada, possuísse um metro e meio de espessura, adoptou a solução de uma viga de apenas 30 cm.

 

Niemeyer deixou obra significativa fora do seu país, chegando mesmo a construir, com Alfredo Viana de Lima, em Portugal, o Hotel Casino do Funchal, a meio da década de 60, hoje bastante desvirtuado. Foi protegido por figuras como André Malraux, em França, ou Giorgio Mondadori, que em 1968 lhe encomendou a sede da sua editora, nas proximidades de Milão. Tornou-se o maior embaixador da arquitectura brasileira. Isto todavia é pouco, se comparado com o contributo que deu à evolução da arquitectura moderna. Muitos dos seus edifícios tornaram-se arquétipos para os arquitectos contemporâneos. Niemeyer foi um génio e como tal, padeceu de violentos ataques e também de elogios condescendentes. Talvez por ter medo da morte, foi aquilo que podemos descrever como um “homem feliz”. 

 

Noticia do Público

04
Dez12

Árbitro assistente agredido mortalmente por jogadores na Holanda

olhar para o mundo

Árbitro assistente agredido mortalmente por jogadores na Holanda

Richard Nieuwenhuizen desfaleceu em campo depois de ter sido esmurrado e pontapeado por jovens futebolistas do Nieuw Sloten. Já no hospital, não resistiu aos ferimentos.

 

Um árbitro assistente de um jogo dos escalões jovens, disputado no domingo na Holanda, morreu esta segunda-feira, na sequência de ferimentos provocados pelas agressões de que foi alvo por parte dos jogadores.

 

"Está num estado de morte clínica", confirmou à agência AFP Bernhard Jens, porta-voz da polícia holandesa, sem avançar com mais informações.

Tudo aconteceu durante uma partida de futebol juvenil, entre o SC Buitenboyse o Nieuw Sloten, equipa de Amesterdão. Logo após o apito final do encontro, Richard Nieuwenhuizen, árbitro de 41 anos, foi abordado e agredido por elementos da equipa visitante. 

 

De acordo com a descrição feita pela AFP, já no chão, o fiscal de linha terá sido esmurrado e pontapeado na cabeça, isto já depois de ter sido várias vezes insultado durante o encontro.

 

Três jogadores do Nieuw Sloten, com idades compreendidas entre os 15 e os 16 anos, foram identificados pela polícia já na noite de domingo e expulsos do clube, que, de acordo com a agência ANP, decidiu entretanto retirar-se das competições.

 

A ministra do Desporto da Holanda, Edith Schippers, mesmo antes de ser conhecida a morte de Nieuwenhuizen, revelou-se chocada com um acontecimento que considerou "absolutamente horrível".  

 

A governante prometeu, a propósito, que a "federação holandesa e a Justiça reagirão de maneira muito dura a este tipo de comportamento". A federação, de resto, já condenou a situação.

 

Noticia do Público

19
Out12

Morreu o escritor Manuel António Pina

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Morreu o escritor Manuel António Pina (Adriano Miranda )

 O Prémio Camões de 2011 estava internado no Hospital de Santo António no Porto. Morreu esta tarde.Tinha 68 anos.

Quando, em 2011, Manuel António Pina soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Camões por toda a sua obra - que inclui poesia, crónica, ensaio, literatura infantil e peças de teatro – afirmou: “É a coisa mais inesperada que podia esperar”. 

Também a sua poesia tinha sentido de humor – o que é raro na poesia portuguesa - e mantinha vivo o diálogo com Fernando Pessoa. Na literatura infantil, Pina mostrava também essa tradição do “non sense”, da brincadeira sem deixar de lado a complexidade.

Era um cinéfilo e sabia cenas de alguns filmes de cor. Numa pequena biografia publicada há alguns anos na imprensa francesa dizia-se que gostava de “cultivar a imagem de poeta de ‘série B’ – para usar uma metáfora cinematográfica – neutralizando assim a tentação de fazer ‘a grande poesia’ fruto de auto-ironia e de uma dimensão manifestamente lúdica dos seus textos”. 

Costumava citar Luiz Pacheco, que dizia que daqui a cem anos ninguém se lembrará do que escrevemos, para contrapor que essa meta acabava: já daqui a um ano. No entanto os seus livros, nomeadamente os infantis que formaram a geração que hoje tem mais de 40 anos, continuam a ser reeditados e não envelheceram. 

Quando em 2011 foi publicada pela Assírio & Alvim, “Todas as palavras – Poesia Reunida (1974-2011)” o crítico Pedro Mexia lembrava no “Expresso”, que “os primeiros poemas de M. A. Pina, não sendo estritamente políticos, documentam uma certa ‘paz dos cemitérios’ e sugerem que ‘não é possível dizer mais nada mas também não é possível ficar calado’. Embora seja tarde, talvez não seja ainda demasiado tarde.”

O título do seu primeiro livro de poesia, “Ainda Não É o Fim nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde”, que foi publicado em 1974 tem sido lembrado nas redes sociais e em cartazes espalhados pelo Porto. É uma iniciativa POP para se criar uma versão nacional e actual do cartaz “keep calm and carry on” que, dizem na página que mantém no Facebook, contou com “o apoio e incentivo directo” de Manuel António Pina. O cartaz original foi criado para ser afixado em Londres, caso houvesse invasão alemã durante a II Guerra Mundial. O cartaz português retoma o título de Pina e é uma homenagem ao poeta “pelas palavras que há muito tempo escreve”: “Não é o fim nem o princípio do mundo, calma é a apenas um pouco tarde” procura “de certa forma, sensibilizar, motivar e mobilizar as pessoas tal como o da situação original”, explicam no Facebook.

O escritor que nasceu, em 1943, no Sabugal, na Beira Alta, vivia no Porto desde os 17 anos numa casa com muitos gatos, que lhe davam material de sobra para os poemas. Conta-se, e foi relatado no “JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias” em 2001, que durante a visita a uma exposição de retratos de escritores portugueses na Feira do Livro de Frankfurt, Helmut Kohl terá parado em frente da fotografia de Manuel António Pina e de um gato e perguntado quem era o escritor. Responderam-lhe que era “o do bigode”. E o chanceler terá dito: “Bigodes têm os dois”. Além de integrar a representação oficial da literatura portuguesa na Feira do Livro de Frankfurt, em 1997, o escritor esteve também na comitiva do Salão do Livro de Paris, em 2000, e no Salão do Livro de Genève, em 2001. 

Durante a infância, foi-lhe difícil fazer amigos. Andou de terra em terra por causa da profissão do pai que era chefe das Finanças e também tinha o cargo de juiz das execuções fiscais. A família nunca chegava a ficar mais de seis anos em cada localidade. Foi o pai que o ensinou a ler e a escrever mesmo antes de ir para a escola e treinava a ler os títulos do “1º de Janeiro”. Desde os seis ou sete anos que escrevia poemas, que a sua mãe guardava, e embora só tivesse publicado o primeiro livro de poemas em 1974, começou a escrevê-lo em 1965. 

 

Noticia do Público

04
Set12

Morreu Michael Clarke Duncan, o “gigante” de The Green Mile

olhar para o mundo
O actor, aqui em Março de 2000, foi nomeado para um ÓscarO actor, aqui em Março de 2000, foi nomeado para um Óscar (Lucy Nicholson/AFP)
O actor norte-americano Michael Clarke Duncan, célebre pelo papel de recluso no filme de 1999 The Green Mile, morreu nesta segunda-feira aos 54 anos num hospital de Los Angeles, menos de oito semanas depois de ter sofrido um ataque cardíaco, informou uma porta-voz.

Michael Clarke Duncan sofreu um ataque cardíaco a 13 de Julho e “nunca recuperou totalmente”, disse Joy Fehily à agência Reuters. Desde então o actor permanecia internado. 

A voz grave e a altura (1,96m) conferiram ao actor uma presença forte no écran. Mas nem sempre foi assim. Duncan começou por cavar valas para a companhia do gás de Chicago, cidade onde nasceu, até que decidiu partir para Los Angeles e tentar realizar o sonho de ser actor. Trabalhou como guarda-costas para actores como Will Smith, Martin Lawrence e Jamie Foxx e só depois seguiu o seu próprio caminho na representação, tendo desempenhado alguns papéis antes de participar no filme Armageddon, em 1998.

O seu desempenho abriu caminho a que, um ano mais tarde, assumisse uma personagem forte no drama The Green Mile – À espera de um milagre, com Tom Hanks. Duncan foi, então, um recluso com poderes mágicos que foi condenado à morte por dois assassinatos que não cometeu. O seu trabalho valeu-lhe a nomeação para os Globos de Ouro e para o Óscar da Academia na categoria de melhor actor secundário. 

“Estou terrivelmente triste com a perda do Grande Mike. Ele foi o tesouro que todos descobrimos na rodagem de The Green Mile”, disse o actor Tom Hanks, acrescentando que Michael Clarke Duncan “era mágico, um amor de pessoa”.

Frank Darabont, realizador de The Green Mile, recordou que à semelhança de John Coffey, a personagem do actor no filme, a imagem de Michael Clarke Duncan contrastava com a sua personalidade. “Michael era a mais sensível das almas, um exemplo de decência, integridade e bondade”, disse o realizador em comunicado. “Não consigo expressar a tristeza que sinto.”

“A cena do filme que mais me custou filmar foi a das duas crianças mortas, simplesmente porque tinha de chorar muito”, disse o actor numa entrevista em 1999, recordando que a cena era tão real que lhe era impossível não ficar emocional. “Vou-me recordar desse dia para sempre.” 

Depois do sucesso de The Green Mile, Michael Clarke Duncan entrou em filmes como Falsas Aparências (2000), Planeta dos Macacos (2001), O Rei Escorpião (2002), Demolidor - O Homem Sem Medo (2003) e Sin City - A Cidade do Pecado (2005).

Emprestou também a sua voz a muitas personagens de filmes de animação, entre os quais se destacam Como Cães e Gatos (2001), Kenai e Koda (2003) e O Panda do Kung Fu (2008). Mais recentemente foi na televisão que o seu nome mais apareceu, tendo participado em alguns episódios da série televisiva Family Guy e protagonizou também alguns episódios deTwo and a Half Men – Dois Homens e Meio.

A namorada de Duncan, Omarosa Manigault, estrela do reality show The Apprentice, pediu privacidade neste momento, garantindo que as homenagens públicas e privadas ao actor serão anunciadas em breve. 

 

Noticia do Público

26
Ago12

Morreu Neil Armstrong

olhar para o mundo

Apesar de discreto e modesto, Armstrong criticou os planos de Obama para a NASAApesar de discreto e modesto, Armstrong criticou os planos de Obama para a NASA (NASA)

 

Foi o primeiro homem a pisar o solo poeirento da Lua, a realizar o sonho de muitas outras gerações de homens que tentaram imaginar o que existiria no círculo brilhante que iluminava a noite. .

Era o dia 20 de Julho de 1969, era ele um piloto de testes que fazia 39 anos dentro de poucos dias e recebeu a prenda de anos mais cobiçada da elite de astronautas formados pela NASA, todos pilotos de caças como ele: a honra de ser o primeiro a sair do módulo lunar “Eagle”. Neil Armstrong, o primeiro a pisar solo fora do nosso planeta, morreu no sábado, aos 82 anos, devido a complicações após uma cirurgia às coronárias

"É um pequeno passo para o homem, um salto de gigante para a humanidade", disse ele, enquanto descia as escadas, produzindo uma frase que se tornou um ícone. O feito foi transmitido pela televisão para todo o mundo, com direito a mensagem de parabéns em directo da Casa Branca, era então Richard Nixon o seu titular. Mas, soube-se muitos anos depois, havia planos de contingência secretos para o caso de nem Armstrong nem Buzz Aldrin, o segundo homem na Lua, sobreviverem à aterragem – ou então sobreviverem, mas não conseguirem regressar.

Diga-se em abono da verdade que os planos não adiantariam grande coisa: não seria possível salvar os astronautas. O Presidente Nixon telefonaria primeiro às futuras ou recém-viúvas, Janet Armstrong e Marion Aldrin, e a seguir entraria em directo na televisão para ler uma declaração preparada para anunciar ao mundo a dolorosa perda: “O destino dispôs que os dois homens que foram à Lua para explorar em paz ficarão na Lua para descansar em paz”, começava em o discurso. A seguir, viria um padre para dizer palavras de consolo.

Responder ao apelo de Kennedy

Armstrong, apaixonado pela aviação desde a infância, obteve a licença de piloto muito cedo, e serviu como piloto militar entre 1949 e 1952. Participou em 78 missões de combate na Guerra da Coreia. A aventura da exploração espacial chamou por ele logo desde o início: integrou primeiro a NACA (National Advisory Comittee for Aeronautics), a entidade que daria depois lugar à NASA, servindo como piloto de testes.

Em 1962, entrou para o programa de astronautas da NASA, quando o Presidente John F. Kennedy lançou o seu apelo mobilizador para a América ir à Lua. Nessa altura, os EUA só tinham conseguido enviar Alan Sheppard 185 quilómetros acima da superfície da Terra, durante 20 minutos – nem sequer contava como voo orbital. O desafio era imenso, recordava Armstrong. "Agora o Presidente estava a desafiar-nos a ir à Lua. O intervalo entre um voo de 20 minutos e ir à Lua era quase para além do que se podia acreditar, tecnicamente."

Comandou a missão Gemini 8, em 1966, quando a agência espacial norte-americana experimentava missões com dois astronautas, depois do programa Mercúrio, em que o objectivo era colocar um único homem em órbita. Ambos os programas eram ensaios a pensar nas manobras necessárias para pôr seres humanos em órbita, fazê-los sair para o espaço, em passeios fora das suas cápsulas, e operações de acoplagem, para adicionar múltiplos módulos, construindo estações orbitais.

Na Gemini 8, Armstron e David Scott realizaram a primeira acoplagem em órbita da Terra: Armstrong fez com que o nariz da cápsula Gemini se ligasse com o satélite Agena. Mas a cápsula com os astronautas desgovernou-se a seguir e quase acabou em desastre, não fora a cabeça fria de Armstrong. Acabou por fazer uma descida de emergência, mergulhando no Pacífico – estava-se bem longe dos tempos do vaivém norte-americano, capaz de aterrar como um avião.

Três anos depois da Gemini 8, com os olhos da América firmemente colocados na Lua, Armstrong foi destacado para liderar a missão Apolo 11 – uma honra, ou uma loucura, pois seria a primeira vez que uma nave tentaria aterrar na Lua. 

Numa raríssima entrevista dada em Março deste ano a uma publicação australiana – Armstrong raramente falava com os media – contou que ele próprio achava que a Apolo 11 tinha apenas 50% de hipóteses de aterrar em segurança no satélite natural da Terra. Os registos da NASA mostram que a sua pulsação era de 150 batidas por minuto enquanto dirigia o Eagle em direcção à superfície lunar, muito acima da média de 90.Esfofo de herói

Por que é que a NASA o escolheu a ele e não ao seu companheiro de missão, Buzz Aldrin, igualmente qualificado, para ser o primeiro homem a sair do módulo lunar? A razão teve mais a ver com as personalidades dos dois astronautas, do que com as suas capacidades – apesar de a NASA sempre ter dito que a decisão foi técnica, diz o “Washington Post”. 

Christopher Kraft Jr, um ex-responsável de topo do programa de voos tripulados da NASA, confirmou-o na sua autobiografia, em 2001, diz o jornal: Aldrin, que se bateu com problemas de alcoolismo e depressão ao longo da vida, era abertamente ambicioso e sempre pronto a expressar as suas opiniões – nomeadamente, a opinião de que ele próprio seria o primeiro homem na Lua. “Pensávamos que Buzz seria o nosso melhor representante para o mundo, o homem que se ia tornar uma lenda? Não”, recordou Kraft. O estóico Armstrong, “reticente, que sempre falava baixo, heróico, era a nossa única opção”, revelou. 

Nos últimos anos, Armstrong saiu um pouco do seu recato para criticar a falta de ambição da NASA. O abandono das missões à Lua, em 1972, substituídas pelos programas de voos que se ficam sempre pela órbita da Terra, nunca foi muito bem visto pela primeira classe de astronautas. Mas os planos do Governo para aposentar os vaivéns e abandonar a construção de foguetões e sistemas de transportes de astronautas da NASA que levem astronautas à Lua e até a Marte levaram Armstrong a criticar abertamente o Presidente Barack Obama em 2010, juntamente com outros veteranos da Lua. 

O primeiro homem na Lua prestou depoimento perante o Congresso e publicou uma declaração na imprensa afirmando ter "reservas substanciais em relação aos planos de esquecer o regresso à Lua e deixar os voos orbitais nas mãos de investidores privados. Disse que estas são "propostas mal orientadas, que forçam a NASA a sair das operações dos voos tripulados no futuro a curto e médio prazo".

A velha "águia" da Lua aterrou, anunciando o fim de uma geração. 

 

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