Biscate, a verdadeira coleção

Biscate, a verdadeira coleção


 

Era Março num dia cinza. A Biscate feliz entrava na festa com seu vestido azul royal, ou era turquesa, ou sabe-se-lá que cores essas tantas de biscates. Era curto – coisa de biscate – e rendado, tomara-que-caia já que biscate não sente mesmo, no fim das contas, frio. Ela carregava um buquê de rosas lilás, as unhas devidamente comportadas num “nude” qualquer. Pés e mãos. Arrebentava a biscatagem mesmo era nos cabelos cor-de-fogo, na tatuagem à mostra no ombro direito. Na lingerie que secretamente usava desde já: o enxoval sou eu. Aquele homem de colete, camisa cinza e gravata, barba feita, olhos esverdeados, esse homem que dorme aqui: casava-se com a biscate. E não era só isso, pasmem! Casava-se era com uma coleção inteira de biscates personificadas ali nos cabelos de fogo, no vestido azul, nas rendas e na lingerie.

 

Tragédia. Tragédia, ó céus, tragédia.

 

Não sabia ele a burrice que cometem os homens que trocam uma mulher incrível por uma coleção de biscates? Não conhecia as mazelas destinadas àqueles que escolhem as biscates? Como ele poderia viver, dali em diante, sem uma mulher-maravilha ao seu lado, que preferisse transar sempre no escuro, papai-e-mamãe e não gostasse de sexo anal? O que faria agora que escolhera para ter ao lado (e embaixo, e na frente, e atrás, e no meio, e por cima, etecetera) uma biscate com vontade própria e desejo, muito desejo, que poderia até deseja-lo indiscriminadamente ao longo das horas do dia, dos dias da semana, das semanas do mês dos meses do ano? De que forma explicaria que a santíssima-esposa passava horas no sex shop, assistia a filmes pornô e masturbava-se por pura diversão para além das sessões de interminável sexo a dois? Era o fim, o cúmulo, a tragédia.

 

Ele poderia ter feito diferente. Poderia escolher a mulher-maravilha. Tivera ele se casado com esta, ela seria uma só. Santa, sempre santa. Era ela personificada no esmalte cor-de-rosa-claro no dia do casório. Seria aquele tom pastel. Sexo pastel. Vida pastel. Cheiro pastel. Tudo pastel. Pastelão, se começasse a ficar ridículo demais (e olha, esta é a tendência). A casinha arrumada, o cordãozinho dourado com pingente em cruz, mas sem o cadáver do cristo pra não enfeiar. Jóias e brincos e delicadezas, fragilidades, feminilidades comportadas. Nojo de fluidos, do corpo, dos cheiros, banheiro só com a porta trancada e nada de banho junto. A comida na medida (mínima), a academia regrada, a vida em aparelhos, a casa da mamãe no santo domingo, a mamãe em casa quando viessem filhos. A escola católica, apostólica e romana, seriam advogados ou engenheiros e, se mulheres, quem sabe poderiam fazer letras, artes, pedagogia e trabalhar até o casamento – ou quem sabe até um pouco depois, antes de chegarem os bebês. Bebês pastéis, vale mencionar.

 

Engana-se quem ainda não descobriu que uma mulher só pode ser incrível se for, ela mesma, a própria coleção de biscates.

 

E tenho dito.

 

Retirado de Biscate social Club

publicado por olhar para o mundo às 23:20 | link do post | comentar