Sexta-feira, 01.02.13

Daniel Oliveira - Os islandeses não "aguentam"

O banco islandês Landsbanki, na sua bebedeira de oferta de crédito, criou o Icesave. Uma espécie de banco virtual onde os clientes estrangeiros, sobretudo holandeses e ingleses, puseram muito dinheiro em troca de juros impossíveis. Depois sabe-se o que aconteceu. A banca islandesa, sempre aparada pelo governo neoliberal que tratou da sua privatização, colapsou. O islandeses revoltaram-se e o governo caiu. Os governos britânico e holandês decidiram pagar, sem perguntar nada a ninguém, os estragos aos clientes do Icesave dos seus países. E apresentaram a factura aos contribuintes islandeses. Ou seja, os islandeses tinham de pagar com os seus impostos as dívidas de um negócio entre privados: bancos e investidores.

 

Quando o governo se preparava para começar a pagar os astronómicos estragos da banca, o presidente Ólafur Grímsson decidiu referendar a decisão. Todos os governos europeus, todas as instituições financeiras e quase todas as forças com poder na Islândia, incluindo o governo e a maioria do Parlamento, foram contra a sua decisão. Tal referendo seria uma loucura. De fora e de dentro vieram todas as pressões. Se a Islândia tivesse a ousadia de não pagar seria uma "Cuba do norte". Ficaria isolada. Nem mais um investidor ali deixaria o seu dinheiro. Os islandeses votaram. 92% disseram que não pagavam. E, mesmo depois de um segundo referendo, não pagaram. A reação não se fez esperar. O governo do Reino Unido até se socorreu de uma lei para organizações terroristas, pondo a Islândia ao nível da Al-Qaeda.

 

A decisão repousava há algum tempo no Tribunal da EFTA. Quando estive na Islândia ouvi, de alguns especialistas, a mesma lengalenga: a Islândia ia acabar por pagar esta dívida. E até lhe ia sair mais caro. Que tinha sido tudo uma enorme irresponsabilidade fruto de populismo político.

 

Contrariando a posição de uma equipa de investigação da própria intuição e as temerosas autoridades judiciais da Islândia, que defendiam "um mínimo de compensação aos Governos britânico e holandês", o tribunal da EFTA isentou, esta semana, a Islândia de qualquer pagamento ao Reino Unido e Holanda.

 

O que estava em causa não era pouco. Era se deve ou não o Estado ser responsabilizado pelos erros dos bancos. E se devem ser os contribuintes a pagar por eles. Claro que a Europa já prepara novo enquadramento legal para atribuir uma maior responsabilização aos Governos pelas quebras no sistema financeiro. Duvido que resulte em maior vigilância ao sistema bancário. O mais provável é dar à banca a segurança que o dinheiro dos impostos cá estará para cobrir os prejuízos das suas irresponsabilidades.

 

Há coisas imorais que se naturalizam. Usar os dinheiros dos contribuintes para salvar os bancos das suas próprias asneiras foi uma delas. Como me disse o presidente Grímsson, "Temos um sistema onde os bancos podem funcionar como querem. Se tiverem sucesso, os banqueiros recebem enormes bónus e os seus acionistas recebem o lucro, mas, se falharem, a conta será entregue aos contribuintes. Porque serão os bancos tão sagrados para lhes darmos mais garantias do Estado do que a qualquer outra empresa?" Perante isto, os islandeses apenas fizeram o que tinham de fazer. Mas o Mundo está de tal forma de pernas para o ar que o comportamento mais evidente por parte de quem tem de defender os cidadãos e o seu dinheiro parece absurdo.

 

Afinal, a Islândia saiu-se bem. Saiu-se bem na economia, já abandonou a austeridade, está a mudar a Constituição no sentido exatamente inverso ao que se quereria fazer por cá e manteve a sua determinação em não pagar as dívidas contraídas por empresas financeiras privadas, tendo sido, no fim, judicialmente apoiada nesta decisão. Porque o governo islandês assim o quis? Não. Pelo contrário. Porque as pessoas exigiram e mobilizaram-se. E as pessoas, até na pacata Islândia, podem ser muito assustadoras.


Por cá, o mesmo banqueiro que se estava a afundar (parece que tinha comprado demasiada dívida grega) e que disse que os portugueses "aguentam" mais austeridade, recebeu dinheiro de um empréstimo que somos nós todos que vamos pagar, apresentou lucros excelentes e até vai comprar, imagino que com o nosso próprio empréstimo, dívida nacional. Ou seja, empresta ao Estado o que é do Estado e cobra juros. Porque nós aguentamos.


Retirado do Expresso

publicado por olhar para o mundo às 13:09 | link do post | comentar
Sexta-feira, 28.12.12

Roubou o BPN para ir às meninas

Não minto, veio no jornal. José Mário Pereira era gerente da agência do BPN das Amoreiras e prometia juros de 30% a quem investisse nas suas aplicações financeiras. Como era impossível pagar aqueles juros de forma legal, o Dr. Pereira sacava dinheiro de outras contas, daquelas contas de gente rica que nunca são mexidas. O esquema durou 10 anos, deu um rombo de 10 milhões ao banco e 1 milhão de lucro ao Dr. Pereira. O jornal (JN) diz que grande parte desta soma "terá sido gasta na prostituição e em casas de alterne". Não, o Dr. Pereira não entrou no empreendedorismo da alcova. Não, o Dr. Pereira não quis ser empresário do sexo. O sujeito em apreço limitou-se a gastar um milhão em serviços sexuais. Um milhão em servicinhos: se não é record do Guiness, deve andar lá perto. Entretanto, o Dr. Pereira andou fugido durante dois anos e lá acabou por ser preso pela PJ no ano passado. Já foi julgado? Não. Aquando da revisão das medidas de coação, o Dr. Pereira foi libertado. Pelo que percebo, o Dr. Pereira está livre. E nós continuamos a pagar o BPN e, já agora, os magistrados que já deviam ter julgado o Dr. Pereira.

 

Juntos, BPN e justiça portuguesa, só podiam dar esta comédia. Tivesse Portugal uma indústria de cinema e estava aqui um argumento pronto para entrar no forno.


Retirado do Expresso

publicado por olhar para o mundo às 23:30 | link do post | comentar
Sexta-feira, 14.12.12

O lixo da Internet

A Internet está cheia de lixo, e isso é sabido. Circulam centenas de mails com ataques torpes e cobardes às mais diversas figuras públicas. Enquanto diretor do Expresso tive de desmentir umas cem vezes um suposto texto de Clara Ferreira Alves sobre Mário Soares que circulou por tudo quanto é sítio, além de várias invenções acerca de Miguel Sousa Tavares e outros colaboradores ou jornalistas do Expresso.

 

O lixo é imenso. Quase todos os dias recebo mails e mensagens no Facebook a perguntar por que motivo não damos notícia de coisas que são mentiras, puras e simples. As pessoas indignam-se porque a comunicação social silencia supostos factos que, apesar de estarem no domínio público, não resistem à prova da verdade. Um dos mais conhecidos mails era sobre umas supostas medidas de François Hollande, a maioria das quais puras invenções.

 

Há dias, na página do Facebook de Pedro Lomba, encontrei um interessante artigo de Philip Roth, talvez o maior escritor americano vivo, a queixar-se da Wikipedia. Porquê? Porque a Wikipedia tem uma interpretação sobre um livro seu que Roth diz ser errónea. E apesar de o escritor a ter desmentido, nem assim é corrigida. E pasme-se! Não se trata sequer de algo controverso. Na Wikipedia diz-se que um livro de Roth, "The Human Stain" (A Mancha Humana, em Português) é inspirado numa pessoa (Anatole Broyard), ao passo que o autor diz que foi noutra (Melvin Tumin). Ora, quem melhor do que o autor para saber em que vida concreta baseou a sua ficção?

 

Ainda assim, há quem entenda que a informação dispensa os jornalistas (que dão a cara) e os órgãos de comunicação social (que têm marca). É uma posição fácil e popular. Mas é igualmente falsa. Exemplos como os que aqui dei, há aos milhares. E todos sabemos que o ruído abafa uma comunicação séria e impede tomadas de posição conscientes.

 

Não pretendo que o jornalismo não tem erros, apenas me limito a chamar a atenção para que cada um saiba ao certo quem o está a informar e porque o faz. 

 

Henrique Monteiro (www.expresso.pt)


Retirado do Expresso

publicado por olhar para o mundo às 13:25 | link do post | comentar
Quarta-feira, 05.12.12

Isabel Jonet: um caso de subnutrição comunicacional

Acho louvável o trabalho desenvolvido pelo Banco alimentar e por Isabel Jonet. É notável o esforço de pessoas que dedicam parte da sua vida a ajudar quem precisa. Igualmente notável é a generosidade de quem responde ao apelo e, na medida das suas possibilidades, contribui para reduzir a velocidade a que esta chaga social tem alastrado. Não consigo conceber que alguém, podendo contribuir, consiga ignorar os sacos de plástico a abanar nas mãos dos voluntários, virando a cara ou inventando uma desculpa. Mesmo que a desculpa seja Isabel Jonet.

 

Não fui dos que acorreu a queimar na fogueira a senhora Jonet quando esta decidiu falar de bifes, copos de lavar os dentes, concertos de rock e radiografias. Achei o discurso algo apatetado mas, para ser sincero, não ouvi nada que pudesse justificar a verdadeira intifada que se iniciou contra a senhora. Tudo espremido, na minha modesta opinião, até tinha algum sumo de verdade. Acho mesmo que durante muito tempo nos habituámos todos enquanto país, a viver acima das nossas possibilidades.

 

Todavia, não posso concordar com a resposta que a senhora Jonet deu ontem ao jornal Correio da Manhã quando lhe foi pedida uma análise aos muitos "casos de crianças que chegam à escola com fome". Disse: " É inexplicável. Deve-se, em parte,  à não responsabilização e falta de tempo dos pais. Sem o pequeno almoço, os alunos não podem ter rendimento escolar (...)"

 

Pois, sem usar a cabeça também não vale a pena abrir a boca e responder seja ao que for. Normalmente corre mal. E quer-me parecer que, apesar das muitas virtudes da senhora Jonet, é um caso de subnutrição ao nível comunicacional. Concedo-lhe o facto de existirem, certamente, casos como os que aponta. Há gente para tudo. Mas generalizar, apontando a irresponsabilidade dos pais pela fome que os filhos sentem é, no mínimo, indecoroso.  Pais que 'não têm tempo' para alimentar os filhos dificilmente pode ser considerados pais. Progenitores, talvez.

 

O que sentirão os PAIS (aqueles que dariam a vida para que os filhos tivessem sempre o que comer) ao lerem uma coisa deste género? Será que a senhora Jonet não consegue levantar voo do 'poleiro' e ver a floresta? No meio de tantas toneladas de arroz, massa e enlatados, não consegue perceber que preside uma instituição que luta contra a fome precisamente porque a fome e miséria são uma triste realidade? Não andamos aqui todos a ajudar os donos dos hipermercados, certo? Há crianças com fome, ou não?

 

Segundo li, a recolha do Banco Alimentar foi um "sucesso extraordinário". Óptimo, fico feliz por ter corrido bem e espero que sempre assim seja (e sempre com o meu contributo, com ou sem declarações infelizes). Mas devo confessar que para mim "um sucesso extraordinário" seria, num país dito desenvolvido, não ser necessário a tantos portugueses dependerem da existência de uma recolha de alimentos para sobreviver.O êxito desta campanha é um sinal claro de fracasso da nossa sociedade. 


PS: E se o Estado entregasse ao Banco Alimentar a totalidade do valor do IVA cobrado sobre os produtos que compramos para ajudar nesta recolha, não seria interessante? De quantos milhões estariamos a falar? E se os proprietários dos hipermercados doassem ao Banco Alimentar parte dos lucros obtidos na venda destes produtos? Fica a sugestão.

 

Retirado de 100 Reféns

publicado por olhar para o mundo às 08:43 | link do post | comentar
Sexta-feira, 23.11.12

Só Vale e Azevedo é preso neste país?

Longe de mim estar a defender o Dr. Vale e Azevedo, mais depressa ia comprar o cd acústico dos Anjos, mas há algo de diferente neste caso. Quer na agilidade processual, nas sentenças e na exigência de cumprimento efetivo das mesmas há qualquer coisa de surpreendente em relação a casos similares. Ou Vale e Azevedo é a exceção que confirma a regra de que neste país quem apropria indevidamente milhões de euros, falsifica documentos à moda de Aristides Sousa Mendes (sem a parte altruísta e benemérita da coisa), branqueia capitais e pratica abuso de confiança, entre outros crimes reles mas de nome pomposo, é quase sempre promovido, ocupa cargos de destaque no mundo das finanças, empresarial e muitas vezes estatal, chegando alguns a conselheiros de altas patentes, outros vão para o estrangeiro a viver de não se sabe bem o quê, ou então algo está mal.

 

Outros, que não o Dr. Azevedo, não passaram na cadeia sequer o tempo que passam no elevador lá do prédio. Seja um elevador da rua Braamcamp, num apartamento novo, comprado a pronto, no centro de Paris ou numa estância paradisíaca de Moçambique. Num país dos sobreiros que cometem suicídio, do Freeport, dos submarinos que envolvem luvas que não calçam a nenhum português (um caso O.J. Simpson das Caldas), do BPN (o maior roubo organizado da história deste país), e de tantos casos em que ninguém, absolutamente ninguém vai preso, em que tudo se esquece , esfuma ou prescreve, Vale e Azevedo é uma espécie de parente pobre dos profissionais da 'charlatonice'. Um cristo de colarinho branco. Um exemplo do 'bom' funcionamento da justiça, a mesma justiça que todos sabemos estar putrefacta, o bode que expia os pecados de muitos, a vergonha de outros tantos e que encobre o iceberg em que ninguém ousa tocar.

 

Não tenho pena de Vale e Azevedo. Provavelmente já tratou, via uma empresa qualquer de nome atrativo sediada numa offshore, de apoderar-se dos terrenos da penitenciária sem gastar um cêntimo. Resta assumir o posto de director da mesma e colocar o actual a limpar-lhe a latrina, limar-lhe as unhas dos pés, servir-lhe o chá das cinco e engraxar-lhe os sapatos Zegna comprados na New Bond Street com um cheque de um primo qualquer condutor de limpa-neves na Suíça (como o outro de Oeiras, que não vai dentro nem à lei da bala, ainda vai ter de se entregar à polícia, coitado).

 

Resumindo: Vale e Azevedo esteve preso, foi arejar até Mayfair e está preso novamente. E os outros, são mais 'finos' que este?

 

Retirado de 100 Reféns

publicado por olhar para o mundo às 10:39 | link do post | comentar
Quarta-feira, 19.09.12

O buraco que as 'manifs' e o regime não querem ver

Henrique Raposo

 

Esta tabela é para imprimir e colar na parede. A austeridade não é uma invenção ou escolha, é a realidade, é a vidinha que temos pela frente. O debate está apenas na fórmula dessa austeridade. Porque os números que se seguem são isso mesmo: números, factos, e não estados de alma.


(a). Portugal tem cerca de 10,5 milhões de pessoas, mas só tem 4,8 milhões de trabalhadores no activo. E o rácio vai continuar a diminuir, ou seja, os cortes nas reformas são e serão mais ou menos inevitáveis. Só havia um caminho para evitar esses cortes: emissão de dívida para armazenar dinheiro no sistema antigo, libertando os mais novos para um sistema diferente. Os polacos fizeram isto. Mas, agora, Portugal não tem a folga necessária para fazer essa mudança. Eis, talvez, a maior das lições desta crise: a dívida deve ser usada em mudanças de fundo, e não na 


(b). Em 2004, a dívida pública portuguesa era de 90 mil milhões; em 2011, já estava nos 174 mil milhões. Em seis anos, um primeiro-ministro quase duplicou a dívida soberana do país. 93% de aumento em apenas seis anos. Isto gerou crescimento? Não. Gerou emprego? Não. Gerou a terceira bancarrota do Estado desde 1977. Mas não faz mal: os ministros e restante canalha deste primeiro-ministro continuam na palminha da mão dos média. A culpa é da Merkel, do protestantismo, dos "neoliberais", do Bush e quiçá do degelo.gestão corrente do Estado.

 

(c). E as PPP? Devido à gentileza socialista , as famosas PPP representam um encargo de 26 mil milhões entre 2012 e 2050 (mas cheira-me que este sub-buraco será maior). Isto faz disparar a dívida do Estado para 200 mil milhões.

 

(d) E, agora, temos a parte divertida: relacionar este buraco financeiro com o buraco demográfico. Em 2004, o Estado devia 8,500 euros por cada português; em 2011, devia 19.032 euros. Isto seria sempre mau, mas torna-se pornográfico quando sabemos que esta política económica, perdoem-me o eufemismo, não gerou crescimento.

 

(e). Se acha que o cenário é péssimo, o meu caro leitor deve esperar mais um pouco. As contas têm de ser feitas não com o número de cidadãos, mas com o número de trabalhadores no activo. Portanto, a nossa vidinha é assim: por cada trabalhador, o Estado devia em 2004 cerca de 18 mil euros; em 2011, devia 41 mil euros.

 

(f). Em 2012, o país ainda não quer olhar para a dimensão deste buraco, ainda quer pensar que a realidade é só a representação da nossa vontade. 

 

retirado do Expresso

publicado por olhar para o mundo às 13:24 | link do post | comentar

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