Quarta-feira, 05.12.12

Isabel Jonet: um caso de subnutrição comunicacional

Acho louvável o trabalho desenvolvido pelo Banco alimentar e por Isabel Jonet. É notável o esforço de pessoas que dedicam parte da sua vida a ajudar quem precisa. Igualmente notável é a generosidade de quem responde ao apelo e, na medida das suas possibilidades, contribui para reduzir a velocidade a que esta chaga social tem alastrado. Não consigo conceber que alguém, podendo contribuir, consiga ignorar os sacos de plástico a abanar nas mãos dos voluntários, virando a cara ou inventando uma desculpa. Mesmo que a desculpa seja Isabel Jonet.

 

Não fui dos que acorreu a queimar na fogueira a senhora Jonet quando esta decidiu falar de bifes, copos de lavar os dentes, concertos de rock e radiografias. Achei o discurso algo apatetado mas, para ser sincero, não ouvi nada que pudesse justificar a verdadeira intifada que se iniciou contra a senhora. Tudo espremido, na minha modesta opinião, até tinha algum sumo de verdade. Acho mesmo que durante muito tempo nos habituámos todos enquanto país, a viver acima das nossas possibilidades.

 

Todavia, não posso concordar com a resposta que a senhora Jonet deu ontem ao jornal Correio da Manhã quando lhe foi pedida uma análise aos muitos "casos de crianças que chegam à escola com fome". Disse: " É inexplicável. Deve-se, em parte,  à não responsabilização e falta de tempo dos pais. Sem o pequeno almoço, os alunos não podem ter rendimento escolar (...)"

 

Pois, sem usar a cabeça também não vale a pena abrir a boca e responder seja ao que for. Normalmente corre mal. E quer-me parecer que, apesar das muitas virtudes da senhora Jonet, é um caso de subnutrição ao nível comunicacional. Concedo-lhe o facto de existirem, certamente, casos como os que aponta. Há gente para tudo. Mas generalizar, apontando a irresponsabilidade dos pais pela fome que os filhos sentem é, no mínimo, indecoroso.  Pais que 'não têm tempo' para alimentar os filhos dificilmente pode ser considerados pais. Progenitores, talvez.

 

O que sentirão os PAIS (aqueles que dariam a vida para que os filhos tivessem sempre o que comer) ao lerem uma coisa deste género? Será que a senhora Jonet não consegue levantar voo do 'poleiro' e ver a floresta? No meio de tantas toneladas de arroz, massa e enlatados, não consegue perceber que preside uma instituição que luta contra a fome precisamente porque a fome e miséria são uma triste realidade? Não andamos aqui todos a ajudar os donos dos hipermercados, certo? Há crianças com fome, ou não?

 

Segundo li, a recolha do Banco Alimentar foi um "sucesso extraordinário". Óptimo, fico feliz por ter corrido bem e espero que sempre assim seja (e sempre com o meu contributo, com ou sem declarações infelizes). Mas devo confessar que para mim "um sucesso extraordinário" seria, num país dito desenvolvido, não ser necessário a tantos portugueses dependerem da existência de uma recolha de alimentos para sobreviver.O êxito desta campanha é um sinal claro de fracasso da nossa sociedade. 


PS: E se o Estado entregasse ao Banco Alimentar a totalidade do valor do IVA cobrado sobre os produtos que compramos para ajudar nesta recolha, não seria interessante? De quantos milhões estariamos a falar? E se os proprietários dos hipermercados doassem ao Banco Alimentar parte dos lucros obtidos na venda destes produtos? Fica a sugestão.

 

Retirado de 100 Reféns

publicado por olhar para o mundo às 08:43 | link do post | comentar
Sexta-feira, 23.11.12

Só Vale e Azevedo é preso neste país?

Longe de mim estar a defender o Dr. Vale e Azevedo, mais depressa ia comprar o cd acústico dos Anjos, mas há algo de diferente neste caso. Quer na agilidade processual, nas sentenças e na exigência de cumprimento efetivo das mesmas há qualquer coisa de surpreendente em relação a casos similares. Ou Vale e Azevedo é a exceção que confirma a regra de que neste país quem apropria indevidamente milhões de euros, falsifica documentos à moda de Aristides Sousa Mendes (sem a parte altruísta e benemérita da coisa), branqueia capitais e pratica abuso de confiança, entre outros crimes reles mas de nome pomposo, é quase sempre promovido, ocupa cargos de destaque no mundo das finanças, empresarial e muitas vezes estatal, chegando alguns a conselheiros de altas patentes, outros vão para o estrangeiro a viver de não se sabe bem o quê, ou então algo está mal.

 

Outros, que não o Dr. Azevedo, não passaram na cadeia sequer o tempo que passam no elevador lá do prédio. Seja um elevador da rua Braamcamp, num apartamento novo, comprado a pronto, no centro de Paris ou numa estância paradisíaca de Moçambique. Num país dos sobreiros que cometem suicídio, do Freeport, dos submarinos que envolvem luvas que não calçam a nenhum português (um caso O.J. Simpson das Caldas), do BPN (o maior roubo organizado da história deste país), e de tantos casos em que ninguém, absolutamente ninguém vai preso, em que tudo se esquece , esfuma ou prescreve, Vale e Azevedo é uma espécie de parente pobre dos profissionais da 'charlatonice'. Um cristo de colarinho branco. Um exemplo do 'bom' funcionamento da justiça, a mesma justiça que todos sabemos estar putrefacta, o bode que expia os pecados de muitos, a vergonha de outros tantos e que encobre o iceberg em que ninguém ousa tocar.

 

Não tenho pena de Vale e Azevedo. Provavelmente já tratou, via uma empresa qualquer de nome atrativo sediada numa offshore, de apoderar-se dos terrenos da penitenciária sem gastar um cêntimo. Resta assumir o posto de director da mesma e colocar o actual a limpar-lhe a latrina, limar-lhe as unhas dos pés, servir-lhe o chá das cinco e engraxar-lhe os sapatos Zegna comprados na New Bond Street com um cheque de um primo qualquer condutor de limpa-neves na Suíça (como o outro de Oeiras, que não vai dentro nem à lei da bala, ainda vai ter de se entregar à polícia, coitado).

 

Resumindo: Vale e Azevedo esteve preso, foi arejar até Mayfair e está preso novamente. E os outros, são mais 'finos' que este?

 

Retirado de 100 Reféns

publicado por olhar para o mundo às 10:39 | link do post | comentar

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