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14
Mar13

Música - O charme discreto do novo Justin Timberlake

olhar para o mundo

O primeiro álbum em sete anos de Justin Timberlake não há explode na pista de dança como Future Sexx/Love Sounds. Atento ao contexto musical actual, prefere concentrar-se nos ambientes sonoros e na sedução como idealizada por Marvin Gaye. The 20/20 Experience é editado segunda-feira.

 

Sete anos depois de Future Sexx/Love Sounds, Justin Timberlake, outrora um miúdo que começou pelos discos, hoje estrela adulta que vive do cinema, da televisão ou, de tempos a tempos, da música, regressa à primeira casa. The 20/20 Experience, o seu novo álbum, começa com opulência orquestral: anúncio grandioso para o homem que, nos discos anteriores, se quis apresentar como fusão moderna de Frank Sinatra e Michael Jackson. Mas não é dessa matéria que é feito (podem confirmá-lo no streaming gratuito no iTunes, a partir do site oficial de Timberlake).

 

O terceiro álbum de Justin Timberlake arrisca sem arriscar: o espírito da velha soul  (pensamos muitas vezes em Marvin Gaye) recriado em produção moderna, encharcada em sintetizadores que planam sobre as melodias. Uma colecção de dez canções que, na sua maioria, se estendem acima dos sete minutos, prova que Timberlake não teve como prioritário pensar nas vezes que cada uma delas passaria na rádio. Na verdade, não precisa disso. Juntou-se ao velho companheiro Timbaland e a J-Roc e fez-se cantor de charme moderno, classe assinalável e óbvio bom gosto.

 

O lado provocador é despachado logo a iníco, em Pusher lover girl, quando o falsete, os metais e as cordas em ambiente de luxúria acabam por se transformar em cenário que o Prince dos primeiros tempos certamente aprovaria. Fala-se de nicotina, de cocaína, de MDMA – “I’m just a junkie for your love”. Canta-se mais: “Be my little pill and flow into my bloodstream”. Segue-se Suit & tie, o primeiro single revelado e o ambiente mantém-se. Classicismo r&b com a classe Marvin Gaye quando em conversa com o sexo oposto, não com Deus – e Jay-Z a aparecer para marcar o ponto.

 

The 20/20 Experience é um álbum de arestas polidas, mais interessado em conquistar-nos pelo cuidado posto nos ambientes sonoros que em explodir na pista de dança (não há por aqui nenhum SexyBack). As canções desenvolvem-se lentamente, quer no ambiente misterioso, nocturno, de Don’t hold the wall, que há-de passar de sopro vagamente magrebino ao poder dos subgraves, quer nessa Tunnel vision, um dos destaques do álbum, cujo ritmo quebrado inicial desembocará em novelo sonoro de explorador electrónico.

 

Justin Timberlake, super-estrela global, preferiu o charme discreto do soul man moderno e sofisticado à pompa de herói pop. Não surpreende, portanto, que em That girl se vislumbre algo de Mayer Hawthorne, um dos que, nos últimos anos, trouxe travo Motown ao século XXI. Não surpreende também que o alinhamento contemple um par de baladas que só poderemos classificar como ambiciosas pela duração – Spaceship coupe e Mirrors prolongam-se o dobro do tempo recomendado e transformam sedução num longo bocejo.

 

Ainda assim, ao fim das primeiras audições, o bocejo não é a memória que guardamos deste álbum em que samples de música do Burkina Faso transformam Let the groove get in em afro-R&B (mas, mais uma vez, a canção contém-se e não explode verdadeiramente como deveria), deste álbum que se despede com um marulhar de electrónica dolente (o fim do sonho, será isso?) intitulado Blue ocean floor.

 

The 20/20 Experience, apesar das suas falhas e da incapacidade de concisão, revela uma elegância e uma atenção selectiva ao contexto musical contemporâneo (ainda não tínhamos referido Frank Ocean, mas também há algo dele nestas longas digressões feitas canção) que assentam bem a este Justin Timberlake. Pode ser hoje músico em part-time, mas não parece.

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