Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

As Coisas da Cultura

Porque há sempre muito para ver e para contar

Porque há sempre muito para ver e para contar

As Coisas da Cultura

04
Jul13

Um em cada quatro portugueses conhece uma vítima de bullying

olhar para o mundo

Um em cada quatro portugueses conhece uma vítima de bullying

Só 17% das pessoas reconhecem o conceito de stalking. Mas quase todos sabem o que é bullying MIGUEL MANSO

Sondagem é hoje apresentada. Dados mostram que é preciso criminalizarbullying e stalking, diz APAV

 

Alguém lhe envia todos os dias bilhetes ou flores - a mesma pessoa que está sempre a encontrar "por coincidência" nos locais que costuma frequentar, que lhe envia repetidamente emails, que andou a recolher informação sobre si e que você suspeita que é a que lhe telefona às tantas da noite mas não diz nada. Isto é stalking. E significa, no essencial, assédio persistente. A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apresenta hoje os resultados de uma sondagem feita pela Intercampus sobre stalkingcyberstalkingbullying ecyberbullying. Mais de um quarto dos inquiridos dizem que conhecem alguém que já foi vítima de algum destes fenómenos e 5% assumem-se, eles próprios, como vítimas.

 

A associação não tem dúvidas de que o problema será mais frequente do que parece. Isto porque a maioria da população (mais de 80%) não conhece o significado de stalking, ao contrário do que se passa com o bullying, ainda que quase sempre reconheça os comportamentos que lhe estão associados. Para além disso, as 1014 entrevistas conduzidas foram presenciais - e as pessoas nem sempre assumem, junto de um entrevistador, o que se passa na sua intimidade, diz Daniel Cotrim, assessor técnico da direcção da APAV.

 

Muitas das atitudes e comportamentos associados ao stalking e ao bullyingestão tipificados como crime (a agressão física, por exemplo), mas outros não - "Experimente ir à polícia dizer que alguém lhe manda todos os dias rosas caras. Dizem-lhe, provavelmente, que não podem fazer nada até que essa pessoa lhe dê uma estalada. E, no entanto, isso está a ter um impacto terrível na sua vida", diz Daniel Cotrim. Esta é uma das razões que levam a APAV a pedir que stalkingcyberstalkingbullying cyberbullying sejam considerados crime.

 

É ainda necessária uma prevenção mais eficaz deste tipo de vitimação "e a promoção de um apoio mais qualificado e efectivo às vítimas deste tipo de situações".

 

O bullying é o fenómeno mais referenciado (por 88% das pessoas que se dizem vítimas ou que conhecem vítimas). A maior parte dos inquiridos reporta insultos, ameaças ou intimidações e agressões. E na maioria das vezes tudo acontece em ambiente de escola (em 55% dos casos os agressores são colegas de escola). Mas não só. Em algumas situações (13%) é um vizinho, em 10%, um desconhecido... Mas o bullying, garante Cotrim, também acontece frequentemente no local de trabalho.

 

Outra das perguntas feitas foi: "Com que frequência ocorre a situação?" Em 41% dos casos a resposta foi "diariamente", sendo que 53% das situações referidas duraram até um ano.

 

No stalking a violência mais relatada é a psicológica (ameaças, por exemplo), no cyberstalking a colocação de comentários indesejados em blogues e/ou redes sociais. No bullying o mais comum é o insulto e a intimidação e nocyberbullying as injúrias e a importunação. As vítimas procuraram apoio (57%), sobretudo, junto de familiares.

 

Comportamentos do stalker


Muito frequentes: recolher ou reunir informações sobre a vítima; enviar bilhetes e SMS; observar/perseguir, fazer esperas; espalhar rumores

 

Presentes em metade das situações: danificar bens pessoais da vítima; ameaçar (directamente ou de forma implícita ou simbólica); deixar flores/animais mortos ou outras coisas obscenas em casa ou no carro da vítima

 

Em 25% das situações: agredir fisicamente a vítima; violar ou tentar violar a vítima;

 

Em menos de 2% das situações: matar ou tentar matar a vítima.

 

Retirado do Público

15
Mai13

Joana Barrios, A miúda de Montemor

olhar para o mundo
Joana Barrios: A miúda de Montemor
É a porteira da discoteca mais concorrida da cidade de Lisboa, o Lux, e actriz do fracturante Teatro Praga, que recentemente levou a cena a peça A Tempestade. Mas Joana Barrios é também a miúda que, aos 27 anos, fala ao telefone com a mãe todos os dias e que adorava fazer uma telenovela.
Até há duas semanas era a miúda que se passeava por Lisboa de cabelo verde, com a mesma descontracção que teria se ele fosse de um discreto castanho. Para muitos, talvez a maioria, Joana Barrios é o rosto feminino da porta da discoteca Lux. Para outros, é a autora de Trashédia, um dos blogues mais politicamente incorrectos. Para outros ainda é actriz do Teatro Praga. Mas para ela, continua a ser a miúda de Montemor, de olhos grandes e joelhos esfolados. A mesma que, aos 27 anos, continua a falar todos os dias com a mãe.

O cabelo verde foi a imagem de marca da mais recente obra do Teatro Praga, A Tempestade, que esteve em cena no CCB e em Paris, onde foi amplamente aplaudida. «É frustrante viver num país em que somos ignorados, quando vamos a Paris e estamos em todo o lado», desabafa. Joana trabalha oficialmente com o colectivo desde 2008, quando fez Conservatório. A relação com o grupo, porém, começou antes. «O primeiro espectáculo que vi foi o Super Gorila, em Montemor. Lembro-me que estava com a minha t-shirt dos Sonic Youth, fui jantar com os meus pais e vi-os. Fiquei histérica e a minha mãe fez uma coisa horrível: foi apresentar-me».

 

Logo de seguida contactou o grupo para que a deixassem assistir aos ensaios da peça Avarento, num momento em que ainda vivia entre Portugal e Espanha. Acabou convidada para fazer o espectáculo seguinte. «Criaram uma cena para mim, em que tinha de ler um poema, e decidi ler aquilo em spanglish. Toda a gente se ria à gargalhada. Percebi que não estava sozinha».

 

Joana Barrios nasceu em Beja, mas cresceu em Montemor-o-Novo, onde ainda hoje a tratam por «menina Joaninha». Foi ali que descobriu a proximidade com as artes, muito por ‘culpa’ da mãe. «Não gostava de ver televisão, passava horas a ler, e sempre tive um problema de hiperactividade. De Abril a Outubro tinha as pernas em carne viva. Por isso a minha mãe arranjava sempre formas de me distrair. Desde torneios de basquete a exposições e espectáculos. Andava connosco para trás e para a frente, sempre de salto alto». A admiração pela mãe fica explícita logo nos primeiros minutos de conversa. «Falo todos os dias ao telefone com a minha mãe, pelo menos meia hora.Somos siamesas. A minha mãe e o meu padrasto, a quem chamo pai, são os meus amigos da vida».

 

Foi em Montemor que conheceu o coreógrafo Rui Horta, que à data abria o Espaço do Tempo. «Isto mudou a minha vida. Fazia teatro na escola e passava tardes no Convento com o Rui». À noite ajudava no restaurante dos pais. Sempre curiosa, ficava horas a falar com as pessoas. «Fui conhecendo pessoas especiais que achavam curioso uma menina novinha que falava português, inglês, francês e espanhol, e via os espectáculos todos». Um percurso nas artes parecia inevitável.

 

Terminou o secundário em Humanidades e, com 17 anos, foi estudar para o Conservatório de Lisboa. «Foi infernal. Estava habituada a ser a melhor em tudo e, de repente, era a pior. Diziam-me que era muito alta e ficava mal na cena, parecia um ‘frondoso carvalho’. Chorava todos os dias». Mas não desistiu e começou a trabalhar na área, primeiro noSão Carlos. Depois em Barcelona, para onde foi estudar Crítica de Cinema e Música Pop e estagiar com a coreógrafa Anna Sanchez. Uma lesão impossibilitou-a de continuar, mas ainda assim resolveu ficar. Arranjou trabalho numa loja de roupa vintage e dava aulas de inglês a uma senhora, «à qual nunca cobrei nada além de comida». Só em 2008, e já depois das primeiras colaborações com os Praga, arrumou as malas e regressou definitivamente a Portugal. Sem arrependimentos.

 

Um ano depois deste regresso recebeu o convite mais inesperado de sempre: ser porteira do Lux, a única discoteca em que alguma vez tinha entrado em Lisboa. Algo que nunca lhe tinha passado pela cabeça. «A invenção Joana Barrios enquanto porteira do Lux é da inteira exclusividade do Manuel Reis», brinca. Não teve como recusar e ali descobriu mais uma família. E sobretudo um espaço que lhe permite manter-se independente nas suas escolhas enquanto actriz. Mesmo que isso signifique que, em temporadas de espectáculo, de 5.ª a domingo, trabalhe mais de 80 horas. «O Lux permite-me ainda viver em Portugal e trabalhar com os Praga. Não é difícil perceber que dois espectáculos por ano não dão de comer a ninguém». E Joana, que antes raramente saía à noite e acordava às 7 da manhã, passou a deitar-se a essa hora três dias por semana. «Não é fácil, mas é muito interessante. Exige uma resistência grande sobretudo porque nos tornamos um alvo fácil. Mas eu sou muito calma».

 

Sabe que a imagem que fazem de si está longe de ser consensual. Acha que não é assim tão importante para ser odiada, mas também nunca procurou consensos. No seu blogue, Trashédia, escreve o que lhe apetece, sobretudo sobre moda e o «porquê da não individualidade». Por vezes chateia alguns grupos, como as tunas, que fizeram correr rios de tinta para a atacarem. «Não ando à procura de status, o blogue é algo que faço para me divertir, mas pelos vistos é mais uma coisa para me odiarem». Mas Joana não está nem aí. Afinal, ela é só a miúda de Montemor, a tal dos olhos grandes e joelhos esfolados, que sonha «casar e ter 300 filhos» e «adorava fazer uma telenovela»

 

Retirado do Sol

08
Abr13

Morreu Margaret Thatcher

olhar para o mundo

Morreu Margaret Thatcher

A antiga primeira-ministra britânica mudou a face do Reino Unido. Morreu aos 87 anos, na sequência de um acidente vascular cerebral.

A antiga primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, morreu nesta segunda-feira, aos 87 anos, em resultado de um acidente vascular cerebral. A revista Time considerou-a uma das cem figuras mais influentes do século XX, e poucos britânicos discordarão da sua presença na selectiva lista, mesmo os mais atingidos pela cura de austeridade que a Dama de Ferro aplicou como remédio ao declínio económico do Reino Unido. Mulher de convicções fortes, impôs a sua “revolução conservadora” ao país, criando uma era a que emprestou o nome.

 

Margaret Thatcher foi a primeira (e única) primeira-ministra da velha Albion, quando a presença de mulheres no cargo era ainda um facto estranho – só não foi pioneira porque antes dela houve “gigantes” como Indira Ghandi e Golda Meir.

 

Num tempo em que a política era ainda integralmente masculina, Thatcher não dava especial importância ao facto de ser a primeira mulher em tais funções, mas citava Sófocles quando a questionavam sobre isso: “Quando uma mulher está em condições de igualdade com um homem, torna-se superior.” E os que a conheceram de perto lembram a importância que dava à aparência – “Sempre que entrava na casa de banho das mulheres, lá estava Margaret a passar um vestido a ferro”, contou à ITV uma antiga rival política.

 

Thatcher também nunca usou o facto de ser mulher para cativar eleitores. Foi uma “máquina de ganhar eleições”, mas nunca trocou votos por simpatia. “Suspeito que nenhum outro líder do nosso tempo será capaz de manifestar tanta vontade de resistir ao desejo de agradar”, escreveu o seu biógrafo Hugo Young. Foi assim quando os cortes que aplicou na despesa lançaram milhões no desemprego, quando assistiu sem ceder à morte de presos do IRA em greve de fome e, sobretudo, quando em 1984 venceu o longo braço de ferro com os mineiros em greve para, logo a seguir, limitar o poder dos sindicatos.

 

Quando abandonou o Governo, em 1990, tinha invertido o ciclo de declínio do Reino Unido (com um PIB que era, em 1979, 30% inferior ao da França) e o “homem doente da Europa” transformara-se numa economia liberal em crescimento. Um país próspero, mas também muito desigual – o caminho estava preparado para a chegada de Tony Blair, um primeiro-ministro radicalmente diferente no estilo, mas que abraçou o mercado livre que herdou dela.

 

Atraída pela política


Margaret Hilda Roberts nasceu em 1925, em Grantham. Os pais, Alfred e Beatrice, eram donos de uma mercearia na pequena cidade da costa leste de Inglaterra e a família vivia no apartamento no andar de cima da loja.

 

Dos seus primeiros anos, a ex-primeira-ministra recordava os fortes laços de entreajuda da congregação metodista a que os Roberts pertenciam, mas também o envolvimento político do pai, membro do conselho local. Um “bichinho” que passou à mais nova das duas filhas.

 

Aluna nas escolas públicas de Grantham, Margaret conseguiu uma bolsa de estudo para a Universidade de Oxford, onde em 1947 se licenciou em Química, tendo como professora Dorothy Hodgkin, galardoada em 1964 com prémio Nobel. Mas às moléculas e partículas, ela preferiu a política, envolvendo-se na associação de estudantes conservadores – porta que lhe permitiu conhecer alguns dos mais influentes políticos que então visitavam a universidade.

 

Antes de completar trinta anos, candidatou-se, em 1950 e 1951, a um lugar no Parlamento por Dartford, um bastião seguro dos trabalhistas. Perdeu, das duas vezes, mas tornou-se conhecida no país por ser a mais jovem candidata a deputada. Foi em Dartford que conheceu e se casou com Denis Thatcher, um empresário local, que se tornará pai dos seus filhos gémeos, Mark e Carol, e sua fiel sombra durante os anos do poder – em público ele tratava-a por “the boss”.  

 

Em 1959 é finalmente eleita deputada por Finchley, um círculo a norte de Londres que representará até 1992. Em Westminster depressa conquista visibilidade: é secretária de Estado no Governo de Harold Macmillan (1957-63), integra vários governos-sombra e quando Eduard Heath derrota os trabalhistas, em 1970, escolhe-a para ministra da Educação. O tempo era de grande agitação social e nas eleições seguintes os tories regressam à oposição, que ela passou a liderar em 1975, após desafiar a liderança de Heath e derrotar os restantes candidatos logo à primeira volta.

 

Nunca antes uma mulher ocupara tal lugar entre as democracias europeias, mas Thatcher levará o feito mais longe quando vence as legislativas de 1979, no rescaldo de um longo período de greves que ficaria conhecido como o Inverno do Descontentamento.

 

Revolução conservadora


Eleita com o slogan “o socialismo não funciona”, mal chega a Downing Street põe em marcha a sua “revolução conservadora”, que tinha como pilares a redução da despesa e do peso do Estado na economia, a privatização de indústrias e serviços, o controlo da inflação. Um tratamento de choque que acelera a recessão e aumenta o desemprego, mas Thatcher fortalece a sua base de apoio com o fomento do “capitalismo popular”, incentivando os britânicos a comprar as casas arrendadas em que viviam ou a adquirir acções das empresas privatizadas.

 

A recessão põe em risco a sua reeleição, mas então subitamente em Abril de 1982 a Argentina invade as Falklands, ilhas a que chama Malvinas e que reclama como suas. Sem hesitar, a primeira-ministra envia as forças para a zona e após sangrentos combates as tropas britânicas recuperam o controlo das ilhas, dando um inigualável trunfo a Thatcher, que, no ano seguinte, é reeleita por esmagadora maioria.

 

Uma vitória folgada que lhe permite radicalizar a sua agenda, fomentando em igual medida ódio e admiração. Em 1984 escapa, ilesa, a um atentado do IRA, em retaliação pela morte de Boby Sands e companheiros, mas o ataque só a torna mais intransigente com o terrorismo.

 

Na política externa, é aliada incondicional dos Estados Unidos e tem em Ronald Reagan o seu modelo. Os analistas dizem que os dois líderes, que chegaram ao poder com 18 meses de diferença, eram almas gémeas – ele garantia que ela era “o melhor homem de Inglaterra”; ela falava dele como o “segundo homem mais importante da minha vida”. Formaram uma aliança inquebrável contra uma ex-URSS em declínio (foram os soviéticos quem lhe colocou a alcunha que tanto lhe agradou), que só aceitou dialogar quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder em Moscovo. 

 

Mais complicadas foram as suas relações com a Europa – “esse continente de onde só vieram problemas”, diria. Adepta do mercado único, opõe-se ferozmente às iniciativas de integração política, tornando-se a primeira dos eurocépticos.

 

Seria, ironicamente, a questão europeia a precipitar a sua queda, em 1990, três anos depois de ser reeleita pela segunda vez e quando estava no auge do poder. A construção europeia, tornada mais urgente pela queda do Muro de Berlim, divide os conservadores e leva o partido a questionar a liderança de Thatcher. A votação acontece quando a primeira-ministra está em Paris e de regresso a Londres percebe que todos a desertaram. Sem alternativas, demite-se.

 

Os doze anos seguintes passa-os em conferências pelo mundo, escrevendo livros, incluindo A Arte de Bem Governar (Quetzal, 2002), que deixaria como testamento político. Quase em simultâneo, a Dama de Ferro anuncia o abandono da vida pública, por conselho dos médicos, após ter sofrido pequenos derrames. A filha revelará depois que a mãe sofre de uma forma de demência – a sua prodigiosa memória trai-a, passado e presente confundem-se. Não desaparece dos olhares públicos – é membro vitalício da Câmara dos Lordes e irá lá em ocasiões solenes – mas a sua voz deixa de se ouvir. A morte do marido, em 2003, deixa-a mais sozinha.

 

Quando escreveu o último livro, o seu retrato acabava de ser mudado da sala dos contemporâneos para a dos históricos na National Portrait Gallery. Thatcher não mostrava ressentimento: “É justo, já se passaram onze anos desde que deixei o n.º 10. Como se diz, o mundo avançou, sob todos os aspectos.” Um mundo que ela ajudou a mudar.

 

Noticia do Público

06
Dez12

Morreu o arquitecto Oscar Niemeyer

olhar para o mundo

Morreu o arquitecto Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer passou o último ano entre o hospital e sua casa REUTERS

 

Nascido no Rio de Janeiro, a 15 de Dezembro de 1907, estava perto de celebrar os 105 anos.

 

O arquitecto brasileiro Oscar Niemeyer morreu aos 104 anos, num hospital do Rio de Janeiro. Tinha sido internado no início do mês passado, pela terceira vez este ano. Desde então, o estado clínico tinha vindo a agravar-se, com problemas respiratórios e renais.

 

Nascido no Rio de Janeiro, a 15 de Dezembro de 1907, estava perto de celebrar os 105 anos. Visitei-o uma última vez, em Março de 2011. Andava entusiasmado com a criação de uma nova Escola Popular que teria o seu nome. Com o humor que todos lhe reconheciam, recordou a construção de Brasília e a sua aversão por viagens de avião. Frequentou o escritório da Av. Atlântica, em Copacabana, até quase ao fim.

 

No Hospital Samaritano ainda trabalhou, contou o seu médico Fernando Gjorup. Só perdeu a consciência na manhã de quarta-feira. O seu corpo irá, na manhã de quinta-feira, para Brasília, onde ficará no Palácio do Planalto, a residência oficial da Presidente Dilma Rousseff. Ao final do dia, regressará ao Rio de Janeiro onde, numa cerimónia para a família e os amigos, será velado. Na sexta-feira de manhã, o espaço do Palácio da Cidade, a sede da prefeitura do Rio de Janeiro estará aberta ao público. O enterro será à tarde, no cemitério de São João Batista, na cidade. 

 

Oriundo de uma família carioca, conservadora e católica, com descendentes germânicos que acompanharam a corte portuguesa, em 1807, na sua mudança para o Rio de Janeiro, Niemeyer viveu uma juventude despreocupada e protegida por uma prima solteira. Estudaria arquitectura por convicção ainda que só tardiamente. No terceiro ano, já casado com Annita Balbo, ofereceu-se para trabalhar gratuitamente no escritório de Lúcio Costa e Carlos Leão.

 

Com Lúcio Costa, cinco anos mais velho, inicia-se na leitura das ideias de Le Corbusier, com quem teria a possibilidade de colaborar logo em 1936, no projecto para o Ministério da Educação e Saúde, no Rio. O edifício seria o resultado de uma equipa montada por Costa, tendo Le Corbusier como consultor. Niemeyer teria grande responsabilidade no desenho final, influenciando a posição do bloco principal no quarteirão, ou determinando a direcção horizontal dos “quebra-sóis”. Em 1939, também em uma parceria com Costa, projectou o pavilhão do Brasil para a Feira Internacional de Nova Iorque, abeirando-se já de uma espacialidade gestual, concretizada no desenho da rampa e na permeabilidade do volume, características que assinalariam a sua primeira grande ruptura com o racionalismo internacional.

 

O melhor, portanto, insinuava-se: “Minha arquitectura começou depois na Pampulha”. Estava-se em plena segunda guerra na Europa e, a serviço de Juscelino Kubitschek, futuro presidente do Brasil, construiria quatro obras-primas à beira da lagoa da Pampulha, bairro residencial sofisticado na periferia da capital mineira de Belo Horizonte. Aqui estreava-se na exploração das capacidades plásticas que a nova técnica do betão armado possibilitava, dotando os seus edifícios de uma forte conotação formal.

 

No entanto, quando surgiu o desafio, também lançado por Kubitschek, já presidente, para a construção dos principais edifícios públicos da nova capital do país Brasília – inaugurada em Abril de 1960 – a arquitectura de Niemeyer ressente-se desse “excesso” formalista, contraindo-se aparentemente. Os edifícios de Brasília apresentam-se geometricamente mais regrados e definidos pela estrutura, como é o caso do Palácio da Alvorada, logo de 1956, ou o conjunto da Praça dos Três Poderes. Esta nova fase seria significativa para a evolução da arquitectura brasileira, repercutindo-se no trabalho das gerações mais recentes.

 

A colaboração estreita que manteve com os engenheiros de estruturas transformaria a sua arquitectura num ensaio de risco permanente. Essa confiança haveria de se manifestar nas obras construídas no exílio, cumprido em plena ditadura militar. Na Argélia, recentemente independente, mais exactamente no campus da universidade de Constantine, cumpriu um dos seus programas arquitectónicos mais arriscados, levando a técnica do betão armado a um limite aparentemente insustentável. Contra o conselho dos engenheiros franceses que propuseram que a grande viga longitudinal, que compunha a fachada, possuísse um metro e meio de espessura, adoptou a solução de uma viga de apenas 30 cm.

 

Niemeyer deixou obra significativa fora do seu país, chegando mesmo a construir, com Alfredo Viana de Lima, em Portugal, o Hotel Casino do Funchal, a meio da década de 60, hoje bastante desvirtuado. Foi protegido por figuras como André Malraux, em França, ou Giorgio Mondadori, que em 1968 lhe encomendou a sede da sua editora, nas proximidades de Milão. Tornou-se o maior embaixador da arquitectura brasileira. Isto todavia é pouco, se comparado com o contributo que deu à evolução da arquitectura moderna. Muitos dos seus edifícios tornaram-se arquétipos para os arquitectos contemporâneos. Niemeyer foi um génio e como tal, padeceu de violentos ataques e também de elogios condescendentes. Talvez por ter medo da morte, foi aquilo que podemos descrever como um “homem feliz”. 

 

Noticia do Público

24
Set12

Ryanair o el vuelo más macabro de mi vida

olhar para o mundo

Tarjeta de embarque de Ryanair

Domingo, 23 de septiembre de 2012. Son las ocho de la tarde y algunos de los bloggers que hemos asistido al TBEX (Travel Bloggers Exchange, el mayor encuentro internacional de bloggers de viajes a nivel mundial) en Gerona nos disponemos a coger el vuelo FR5433 de Ryanair con destino Madrid. En la puerta de embarque, como siempre, follón con las maletas porque llevamos más de dos bultos o el bolso que nos hacen meter con calzador en el poco espacio permitido de equipaje de mano. Me obligan a introducir la maleta en el hueco minúsculo para medir el tamaño, y no cabe. Saco el bolso y se lo doy a un compañero y por fin me dejan pasar (no puedo tardar en hacer la reestructuración de la maleta más de 2 minutos o me hacen facturar por el módico precio de 50 euros. Sin IVA). Nos acabamos de enterar este fin de semana a través de algunos compañeros bloggers de que a partir de ahora las azafatas cobran comisión por cada maleta que facturan en la puerta, y también de una comunicación oficial por la cual no puedes volar con DNI caducado ni con el permiso de conducir en su lugar. De lo contrario, pagas. Ahí queda eso.

 

Nada más entrar, la misma sensación de “somos ganado” que he tenido con ellos en los últimos viajes (el ultimo, a Bilbao la semana pasada). Consigo colarme en uno de los pocos asientos que quedan libres casualmente es ventana, así que me toca levantar a toda la fila al completo con sus consecuentes caretos) y meter la maleta, otra vez con calzador, debajo de los asientos, porque a pesar de haber dos filas libres enteras reservadas en la parte delantera “no queda sitio para el equipaje”. Un vuelo más como sardinas en lata. Me repito a mí misma que no vuelvo a volar con Ryanair nunca más, pero en esta ocasión era mi única vía de llegar a Gerona a tiempo para un encuentro que no me podía ni quería perder.

Se cierran puertas y empieza la función. Porque, como si de un vodevil se tratase, uno de los azafatos (que se debía de creer muy gracioso por cierto) empieza a decir por la megafonía del avión -palabras textuales- que en breve se apagarán las luces de cabina para el despegue, y “como ya sabemos que todos piensan que somos unos chorizos, agarren bien sus bolsos por si acaso les robamos, y si no se fían pueden encender las luces de lectura”. Primera broma de mal gusto. Me intento morder la lengua y quedarme dormida, hasta que a los cuarenta minutos de vuelo empieza a haber unas turbulencias fuertes y el piloto avisa de que nos abrochemos los cinturones. Intento seguir durmiendo pero es imposible, porque el mismo azafato gracioso anuncia la lotería que, “si compran, les puede sacar de sus miserables y ruinosas vidas. Hasta el piloto me acaba de llamar por el interfono para pedirme un cupón porque hoy no hemos vendido ni uno”. Y España en plena crisis. Me empieza a parecer una broma, pero ya de las pesadas. No estoy de buen humor e intento respirar hondo.

 

Pero siguen las turbulencias, y me empieza a invadir una sensación de miedo y descontrol del avión. Lo primero, he viajado por todo el mundo y raramente paso miedo en los aviones. Lo segundo, no suelo pedirle por lo general muchas cosas a una compañía aérea (y he volado con muchas de ellas y en muy diferentes modos, desde low cost hasta lujo asiático) pero hay algo que creo que es un derecho y un deber de cualquier pasajero para una compañía aérea y que bajo ningún punto de vista perdono: la seguridad. Y después de oír dos o tres bromitas seguidas (que ya no tienen ninguna gracia) del susodicho azafato de turno (“visiten Valencia donde se pueden encontrar la playita…”) pues me empiezo a poner un poco nerviosa. Si la tripulación habla así a los pasajeros, con total falta de tacto y de respeto, ¿cómo será el piloto que está al mando del avión? Damos un par de tumbos, y la falta total de profesionalidad y de seriedad de la tripulación, que parece que no hacen más que reírse de los pasajeros durante todo el viaje, contribuye a acentuar mi sensación de inseguridad, hasta el punto de estar a punto de encender el móvil porque no me siento protegida. Ni yo, ni nadie, tenemos ninguna necesidad de estar pasando por todo esto.

 

Aterrizamos, sin novedad, aunque el tren de aterrizaje se oye varias veces y, el azafato de turno continúa su cantinela que para mí ya se ha convertido en macabra: “Les agradecemos que hayan volado una vez más con Ryanair, aunque sinceramente no lo entendemos después de todo lo que se está diciendo estos días en la prensa sobre nosotros”. Cuando voy a salir del avión, deseando tocar tierra firme ya y que se queden muy lejos (por supuesto no hay finger y nos toca subir al autobús en tropel) el graciosito se despide de mí diciendo: “Por lo menos, hemos conseguido que se gasten 0,20 céntimos en mandar un SMS”. Y encima parece que no ha acertado ni una en todo el vuelo, tampoco sabe que lo que estoy escribiendo nada más bajar del avión es un tweet para dejar constancia en mi TL, pero como hace más de 35 días que no entran en su cuenta corporativa no lo entienden, ya que además no siguen ni parecen querer escuchar ni a uno solo de tus clientes. Esto es un buen customer service. Muy bien, chaval, palmadita en la espalda. Y tú has conseguido que yo, nunca más, vuelva a volar con vosotros. Con la seguridad no se juega, y hay ciertos tipos de trabajos en los que las bromas y los chistecitos pesados sobran. Porque a veces, lo barato puede salir muy caro, empiezo a pensar que hay compañías que no deberían haber existido nunca. Ya basta de tonterías, mi vida y mi tranquilidad valen mucho más que todo eso.

 

La próxima vez me quedo en tierra, gracias Ryanair.


Retirado de 3 viajes al dia

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub